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A diferença fundamental entre feedback e reentrada é que o feedback baseia-se na existência prévia de um código – seja ele qual for. No fenômeno do feedback, a informação produzida como resultado de uma operação é utilizada para modificar a sequencia  das operações.  Eu tenho a informação a partir do evento, ou da operação anterior que funciona, para as operações subsequentes, num processo contínuo de auto-regulação. O código é gerado como resultado do “estado atrator”do sistema – dependendo do sistema de que estivermos falando. Por exemplo, os meios de comunicação são regulados pelo código informação/não informação que é determinado pelo fato de um evento repetir ou não um evento anterior – na definição classica, a informação consiste na diferença que faz diferença…

Já a reentrada não precisa de um código; a  reentrada é a emergencia da ordem sem um código! Mas como vamos explicar a emergência de sistemas ordenados sem pressupor um código?   Ora, para que a informação funcione como informação ( isto é, que faça diferença, acrescente algo à ordem anterior) deve haver um código pre-existente.  Os códigos seriam, portanto, uma condição a priori da informação, ou de sua possibilidade, espécie de normas que dirigiriam sua produção.

Mas, e se não existisse código ou um a-priori que desse conta da ordem? Edelman fala  da dinâmica da reentrada para explicar esse tipo de emergência. E usa o quarteto de cordas como exemplo, um quarteto de cordas sem pauta…

Although no conductor would instruct or coordinate the group and each player would still maintain his or her style and role, the player’s overall productions would lead to a kind of mutually coherent music that each one acting alone would not produce. ( p. 49)

Gerald Edelman propõe uma teoria não-teleológica para os sistemas neuronais e, mais no início de sua carreira ( quando ele ganhou o Prêmio Nobel), para o sistema imunolõgico. Interessante é que já em1948, Edward Tolman fez experimentos com ratos nos quais se os colocava em labirintos sem nenhuma tarefa definida: eles podiam percorrê-los livremente . Então, Tolman observou que, sem quaisquer recompensas ou objetivos, os ratos em experiências posteriores demonstravam um certo conhecimento do labirinto, atingindo mais rapidamente e com menos erros o alimento. Isto é, ao caminharem sem objetivo, os ratos aprenderam algo… sem necessidade nem de recompensas, nem de punições. Tolman propôs a existência de mapas cognitivos, espécie de schemata/esquemas : estratégias,  e não conjunções ou disjunções.

Voltando ao quarteto de cordas: como um idealista transcendental explicaria a coerência dessa pequena sinfonia? Ele responderia que, sem dúvida, os concertistas teriam seguido um conjunto de regras – a pauta musical – que coordena suas ações e seus instrumentos. Ele poderia, até, propor uma teleologia que instruísse as ações dos instrumentistas e avaliaria se o desempenho deles estava ou não de acordo com seus objetivos.

Um amigo filósofo me explicou que, para Deleuze,  a obra de arte é, ela mesma, a gênese de uma forma inteiramente nova de sensibilidade, uma emergência a partir do caos, a produção de sua propria ordem.  Deleuze se interessa tanto pela   estética, não exatamente por que goste de arte, mas por que ele observa na produção artística algo parecido com a ” ontogenia” da percepção e da cognição na criança e, até mesmo em outras espécies. Assim, a informaçãonão está ” lá” desde o início, mas resulta de uma ontogenia; é algo que precisa ser produzido, criado, num processo emergente.

Assim, para Gerald Edelman, a consciência tal como nós a experimentamos continua a emergir a partir de estados cerebrais e processos neuronais sem se reduzir a estes. Ele trabalha a partir de um vasto referencial darwiniano, no qual os cérebros dos membros da nossa espécie são muito semelhantes – por razões evolucionárias -  e também diferentes dos cérebros de nossos parentes, também por boas razões evolucionárias. Mas os nossos cérebros individuais, por isso mesmo,  desenvolvem suas próprias formas de organização que dão origem aos vários sentidos de self que nós temos.

Uma observação: os lacanianos tendem a ignorar essa literatura, inclusive a concepção de Stephen J. Gould dos “spandrels”para entender as mudanças evolucionárias em termos biológicos. Os spandrels ( tenho de ver a tradução em algum livro dele traduzido para o português) enfeites na arquitetura   dos arcos nas catedrais, nos castelos, etc barrocos e que, apesar de lindos e instigantes, parecem não servir para nada…

Konrad Lorenz defende o conceito de teleonomia, criado por Jacques Monod – processo segundo o qual o acaso é fundamental, as regras são transitórias, e os resultados são não intencionais e passageiros. Isto quer dizer que o sistema se orientaria a partir de singularidades.

Um neurocientista pouquíssimo citado, e muito menos lido no Brasil é Gerald Edelman. Tem apenas um livro em português – de Portugal -, e mais complicado ainda, traduzido do francês! Vai daí que o título em inglês ( “Bright air, brilliant fire”) virou “Biologie de la conscience” e, em português, pasmem, ” Biologia da consciência”.

Um equívoco sem fim, pois os tradutores francês e português  usam a palavra ” esprit”/”espírito” para falarem de ” mind”/ ” mente”. Esse é um deslizamento semântico que não me parece desprezível, pois indica as diferenças filosóficas e epistemológicas no campo, do ponto de vista da tradição empirista  inglesa e da francesa ( filosofia continental). Assim, além de terem acesso a um livro publicado em 1992 (nossa… isso, no campo da neurociência, é quase uma eternidade), os leitores interessados não são alertados desses aspectos das traduções.

A questão é tão relevante que Antônio Damásio, na tradução brasileira  de seu livro ” O mistério da consciência” ( que, no original é ” The feeling of what happens”…), exigiu que a palavra ” self” fosse mantida na tradução. E, no corpo do livro, explica essa questão diferenciando as línguas neolatinas da anglosaxônica.

Por isso, vou comentar um livro de Edelman, A universe of consciousness: how matter becomes imagination” , publicado se não me engano em 1998 ou 2000. Depois disso, Edelman já lançou mais dois livrinhos. (Como não estou em casa, depois coloco aqui a bibliografia completa do dito cujo.)

O livro  apresenta uma discussão rica e bastante sofisticada da consciência, tanto no aspecto fenomenológico quanto no neurológico, incluindo os debates quanto à questão da mente na história da filosofia e da filosofia da mente contemporânea, junto com uma vasta gama de material proveniente da neurologia e da psicologia. Sendo mais precisa, o livro foi escrito por Edelman e Giorgio Tononi. E ambos se desdobram para propor uma teoria neurológica da consciência.

Sua abordagem é interessante e até provocativa por que eles colocam a questão de uma nova maneira. O tema dos fundamentos neurológicos da consciência continua sendo alvo de um grande debate, e não se trata  absolutamente de algo encerrado. Na verdade, não temos ainda um relato neurológico de como a consciência emerge a partir da atividade neuronal. Claro que estou ciente disso… Se eu sou levada a afirmar que não existe uma contenda dualista séria quanto à hipótese fisicalista, isso NÃO se dá por que se teria já um estudo de como a consciência surge do cérebro, mas sim por que existe uma massa de evidências observacionais a partir do estudo de várias lesões cerebrais, e outros aspectos, que mostram como a consciência é um fenômeno físico. O estado da arte da neurologia quanto à sua capacidade de explicar a consciência é semelhante ao estado da biologia logo depois da teoria da evolução/seleção natural proposta por Darwin. Todas as evidências colhidas logo após Darwin indicavam a verdade de sua proposta – falando superficialmente, enfim. O que faltava? o que faltava era um “mecanismo” através do qual traços podiam ser transmitidos às gerações seguintes. Apesar de G. Mendel, tivemos de esperar quase um século até que esse “mecanismo” fosse descoberto, e aí,   pudéssemos finalmente começar a entender como ele funciona.

Um aspecto que torna a abordagem de Edelman e Tononi tão interessante´- e tão diferente das outras – é que eles mudam o tema da questão de como a consciência é produzida para a pergunta de quando ela é produzida. É claro que sempre esperamos pela resposta ao^”como”, mas pensar o ” quando” é original. Acredito que essa formulação ajuda-nos a partir dos processos e das suas estruturas que geram a consciência.  A  investigação de Edelman abrange tanto o aspecto fenomenológico como o neurológico. ]

Fenomenologicamente, ele está atento à experiência vivida da consciência, em sua unidade indivisível, nosso sentido de self ( si-mesmo, como dizem os portugueses), sua natureza diferenciada internamente, etc etc. Lembra Bergson em Duração e simultaneidade, qdo ele descreve  as múltiplas durações. Mas, o que é mais importante,  ele está atento a quando a consciência surge no nível fenomenológico da experiência, e quando ela desaparece ou se desvanece. Aqui, não se trata somente de estados de sono ou vigília, mas de um âmbito extenso de estados de nossa experiência vivida.  Por exemplo- algo simples – quando começamos a aprender a dirigir,  ou digitar, inicialmente estamos altamente conscientes de todos os movimentos de nossos dedos, braços, pernas, etc; no caso da digitação, atentos à tela, ao texto na tela e no original.  Agora, possivelmente não estamos conscientes ( eu não estou…) da maior parte dessas atividades, realizando-as de maneira “automática”, sem pensar.

Essa é uma observação importante, do ponto de vista fenomenológico. pois ela enfatiza a maneira através da qual nos acabamos por distorcer o pensamento, privilegiando a consciência. Isto é, se damos privilégio à consciência, acabamos por colocar todo o pensamento num âmbito de fenômenos muito limitado. Não li muito sobre fenomenologia, mas sei que Husserl analisa e propõe o habitus ( vide Bourdieu…). Lembro também Hume.

Edelman nem menciona isso, mas é interessante  como a maneira de se colocar a questão – e penso aí nos filósofos, diferentemente dos neurocientistas -  que têm, por seu próprio tipo de engajamento no trabalho de pensar, de desenvolver um raciocínio a partir de textos, etc., e um alto grau de consciência ( em inglês, awareness). Claro que isso não é um problema, e sim uma diferença.

Torna-se um problema quando se transpõe essa forma de pensar muito específica a toda experiência vivida. Aí, lembro-me de novo de Bourdieu, mas  pela crítica que ele faz ao intelectualismo, ao mostrar como a posição social e a vida mesma do acadêmico o levam a uma distorção das questões da prática, quando ele( Bourdieu) formula os fenômenos do habitus em termos de “seguir regras” ( ver Méditations Pascaliennes).

Do ponto de vista neurológico, Edelman é ainda mais interessante. Ao colocar a questão da consciência em termos de quando a consciência surge, é, Edelman correlaciona estados conscientes e vários fenômenos neurológicos. Sua conclusão é a de que a consciência não está localizada numa região específica do cérebro, nem num grupo de regiões, mas é mais o resultado/ resultante de um  processo que envolve inúmeras interações neuronais específicas. É claro que isso soa como uma obviedade para a maioria de nós. Mas como dizem que o diabo mora nos detalhes… A tese não é a de que a consciência é o resultado de uma atividade distribuída dos neurônios, mas que as especificidades dessa atividade é que são fundamentais. Por exemplo, em estados não-conscientes de sono não-REM, ou em crises epilépticas ( e em inúmeros estados usuais que não são do âmbito da doença ou de um transtorno), o cérebro está altamente ativo. A diferença entre estados conscientes e não-conscientes não é se ou onde neurônios estão disparando, mas principalmente a maneira pela qual eles disparam. Por exemplo, o sono não-REM se caracteriza por um alto grau de disparo homogêneo entre essas redes imensas de neurônios. Os neurônios ficam sincronizados.

Curiosamente, um padrão similar de disparo acompanha a conversão histérica! onde o paciente tem uma paralisia ou uma cegueira, sem causas corporais visíveis. Edelman compara esses padrões de disparo a padrões de entropia. Exemplo clássico: quando um gás é colocado numa caixa, as partículas que o compõem tendem a se distribuir igualmente por toda a caixa, o que indica um alto grau de entropia. A consciência parece emergir somente quando os padrões de disparo tornam-se diferenciados e não-sincronizados de maneira significativa dentro do sistema neurológico.

O conceito edelmaniano de “reentrada” está claramente ligado a tudo isso. O Wikipedia em inglês tem uma definição extensa – e excelente – desse conceito. Vou tentar traduzir:

…o terceiro ponto da tese de Edelman é o conceito de sinalização reentrante entre grupos neuronais. Ele define reentrada como a troca contínua recursiva dinâmica de sinais que ocorre em paralelo entre mapas cerebrais e que continuamente interelaciona esses mapas uns aos outros no tempo e no espaço. Depende, para suas operações, de redes imbricadas de conexões maciçamente paralelas recíprocas dentro e entre grupos neuronais, que surgem durante os processos de desenvolvimento e seleção experiencial esboçada acima. Edelman descreve reentrada como “uma forma de seleção de ordem superior que parece ser singular a cérebros animais” , e que ” não existe nenhum outro objeto no universo conhecido tão completamente diferenciado pela circuitaria reentrante como o cérebro humano”.

UFA!!

Mas não podemos confundir reentrada com feedback, pois eles são completamente diferentes. O feedback se baseia na existência prévia de um código. No feedback, a informação produzida como resultado de uma operação é usada para modificar a próxima sequência de operações.

poesia

Two roads diverged in a wood, and I -

I took the one less travelled by,

And that has made all the difference.

( Robert Frost!)

… onde um foulcaultiano radical  argumentaria que não existe a realidade em si, mas somente discursos sempre modificados quanto ao que é real, o realista transcendental diria que o objeto permanece o que é , independente do que os vários discursos dizem sobre ele.
O construtivista radical  afirmará ou 1) que o discurso faz o objeto, ou 2) na medida em que existe um mundo radicalmente diferente dos nossos discursos,  podemos somente conhecer o mundo dos nossos discursos. Como Lacan diz, “ o universo é a flor da retórica”.
Por sua vez, o realista afirmará   que existe um mundo de objetos não construídos por nossos discursos e que podemos ter conhecimento dos elementos desse mundo ( conseguido através de um duro trabalho, claro). Consequentemente, enquanto a dimensão transitiva das teorias, crenças, organizações sociais, etc  está sempre mudando, os objetos são eles mesmos intransitivos a esses discursos, e são o que são independente do que dizemos sobre eles. Não são os discursos que fazem desses objetos o que eles são.
Ora, Jerry the Anthropologist afirma que os próprios objetos podem ser transitivos, na medida em que estão também sempre mudando. Isso pode ser visto mais claramente no caso da biologia. Não somente os genes mudam através do tempo pela seleção natural como a teoria evolucionista argumenta, mas se o argumento de Susan Oyama na “Ontogeny of Information” for verdadeiro, essas mudanças se dão no nível do individual. Oyama afirma que não existe uma distinção nítida entre “nature”e “nurture”.

Ora, essa tese é um lugar comum na biologia. Oyama radicaliza ao mostrar como em cada estágio do desenvolvimento temos um constante intercâmbio entre genes, desenvolvimento dos tecidos e ambiente, de tal maneira que não se pode afirmar que essa informação “já estaria lá”( nos genes, por exemplo), mas mais que a informaçào que orienta esse desenvolvimento é na realidade produzida por essa complexa interação. Essa é uma interação muito complexa que se dá no nível das células individuais, por exemplo, na medida em que elas se prejudicam ou se ajudam na emergência de uma  organização   em maior escala. Também é uma interação que se dá num interjogo constante com o meio ambiente, onde fatores tais como temperatura, pressão, nutrientes disponíveis, luz, água, etc. Pesquisas com ratos, por exemplo, indicam que pode ocorrer uma diferença decisiva no desenvolvimento de ratos dependendo da presença ou não de odor do macho .
Além disso, cada estágio do processo ontogenético tanto gera novas fontes de informação do interior das células e do genoma, quanto fecha outras possibilidades.
Lacan observou algo semelhante em estudos sobre desenvolvimento de pombos: em certas espécies de pombos, o desenvolvimento do gênero dependeria de ver outro pombo  se desenvolver de uma maneira específica.

Laço

O que não sei de onde veio

vem do meu pai, do pai dele

do silêncio de um, próximo

superposto ao do outro, longe.

Silêncio de retrato antigo

ouvido por quem não o conheceu

a não ser vazado através

do filho que me fez de carne

e chega ao neto, ao filho

do seu filho, e a meu filho.


Título do documentário sobre a vida do poeta: “Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície”(…)

Outro trecho de poema de Armando:

Por entre os dedos feito areia

dentro das mãos que não seguram e se esvaziam,

a vida foge pelas veias

e o meu corpo não calcula mais seu pulso.


Copiando trecho de Larval subjects

... where a radical Foucaultian might argue that there is no reality in itself but only ever shifting discourses as to what is real, the transcendental realist would argue that the object remains what it is regardless of what various discourses say about it. The radical constructivist will either claim 1) that the discourse makes the object, or 2) while there is a world radically different than the one described by our discourses, we can only know the world of our discourses. As Lacan put it, “the universe is the flower of rhetoric”. The realist, by contrast, will affirm both that there is a world of objects not constructed by our discourses and that we can have knowledge of elements of this world (gained through painstaking labor, of course). Consequently, while the transitive dimension of theories, beliefs, social organizations, etc., are ever changing the objects are themselves intransitive to these discourses and are what they are regardless of what we say about them. It is not the discourses that make these objects what they are.

Now, if I understand Jerry the Anthropologist’s point correctly, it is important to emphasize that objects themselves can be transitive in the sense that they are changing. This can be seen most clearly in the case of biology. Not only do genes change over time through natural selection as argued by evolutionary theory, but, if Susan Oyama’s compelling argument in The Ontogeny of Information is true, these changes take place at the level of the individual. Oyama argues that no neat distinction can be drawn between so-called “nature” and “nurture”.

Now this thesis is a commonplace in biological circles, however, Oyama significantly radicalizes this thesis, showing how at each stage of development, we have a constant interplay between genes, tissue development, and environment such that information cannot be said to be “already there” (in the genes, for example), but rather where information presiding over development is actually produced through this complex interaction. This is a complex interaction that takes place at the level of individual cells, for example, as they either hinder or assist one another in a larger scale emergent organization. It is also an interaction that takes place in constant interplay with an environment where factors such as temperature, pressure, available nutrients, light, moisture, water, etc. Indeed, studies with rats, for example, indicate that a decisive difference is made in rat development depending on whether or not male odor is present in the next at birth. Lacan noted something similar with the development of gender in certain species of pigeons which, apparently, must see another pigeon to develop in a particular way. Further, each stage in the ontogenetic process both generates new sources of information both from within the cells and the genome and closes off other possibilities.

O valor do Rascunho

Parafraseando Anna Veronica Mautner, na Folha SP Equilibrio, como educadora sempre penso em como ensinar os alunos a gostarem de ler, de escrever, de pesquisar: o valor da curiosidade.

Mas, se nem rascunho eles fazem… acham que não tem valor. Ou melhor, acham que as coisas nascem prontas, “assim”, e que re-escrever várias vezes um texto, além de ser uma chatice, é “perda de tempo”.

Aí, cito a dita psicanalista:

O sentido do rascunho era o de permitir correção. Não só permitir como prever. A primeira forma de um trabalho dificilmente pode ser vista como definitiva. Portanto, a primeira formatação é sujeita a modificações e correções.

(…)Rascunho não existe mais, assim como caiu em desuso a borracha. Além disso, a nota de “ordem”, que eu saiba, desapareceu do boletim – ordem deixou de ser importante. Esses fatos aparentemente banais são importantes e influem em todo o processo educacional.

(…) A possibilidade e a necessidade de encarar o que faz, prestar atenção, corrigir uma relação importante consigo mesmo. O alinhavar e o rascunho mostram que acho importante o que estou fazendo e, por isso, presto atenção, corrijo, refaço porque me dou o devido valor.

Há alguns dias, vi com minha filha o DVD de “A lenda”, com Will Smith. O diretor e o ator  destacam que uma das características importantes do personagem , que eles resolveram desenvolver, foi o sentido de ordem, limpeza e disciplina no trato consigo mesmo, apesar do personagem viver absolutamente só. Colocam-se assim contra a estética do sujo, do descuidado, do desmazelado, de   filmes com temas semelhantes, nos quais os personagens vivem num lixo só, sem se preocuparem com esse cuidade de si ( como diria Michel Foucault).

Significativamente, somente eu escutei esse comentário, nos extras do filme. Tivemos de retornar o DVD, para que ela também, muito espantada, o escutasse.

A Mautner tem toda razão…

GINASTAS E CAPOEIRISTAS: PLANTANDO BANANEIRA…

http://neuroanthropology.net/2008/01/01/equilibrium-modularity-and-training-the-brain-body/

Balance between cultures: equilibrium training

Neuroanthropology is a collaborative weblog created to encourage exchanges among anthropology, philosophy, social theory, and the brain sciences. We especially hope to explore the implications of new findings in the neurosciences for our understanding of culture, human development, and behaviour.

Way back in January, I posted ‘Equilibrium, modularity, and training the brain-body.‘http://neuroanthropology.net/2008/01/01/equilibrium-modularity-and-training-the-brain-body/. At the American Anthropology Association annual meeting, I presented my current version of this research, significantly updating it with ethnographic material from Brazil, a comparative discussion of different techniques for training balance, and a series of graphics that I hope help to make my points. The title of that paper was ‘Balancing Between Cultures: A Comparative Neuroanthropology of Equilibrium in Sports and Dance.’

…a new generation of brain research, what Andy Clark (1997) refers to as ‘third wave’ cognitive science, or work on embodied cognition.1 Much of the ‘third wave’ does not focus strictly on what we normally refer to as ‘cognition,’ that is, consciousness, memory, or symbolic reasoning. Rather embodied cognition often highlights other brain activities, such as motor, perceptual and regulatory functions, and the influence of embodiment on thought itself; this is the reason I’m thrilled to have endocrinologist Robert Sapolsky as part of this panel, as his work is part of the expanded engagement of neuroanthropology with organic embodiment.2

Equilibrium: modular or nodular?

This plasticity, however, runs contrary to the argument that equilibrium is an innate human capacity. Philosopher and cognitive theorist Jerry Fodor, for example, writes that the ability to recover equilibrium is ‘a new contender for “best example of a module”’ (Fodor 2000:118, fn. 9).8. A ‘module,’ according to Fodor, is a domain-specific, encapsulated, quick, fixed functional system in the mind, which is inaccessible to conscious thought or information from outside its’ specific domain (Fodor 1983, 1988). Fodor and others interested in modularity build upon arguments in Chomsky’s work (esp. 1980, 1988), but also draw evidence from optical illusions, theory of mind, and localized neuropathology. Leda Cosmides, John Tooby and Steven Pinker, like a number of evolutionary psychologists, have claimed that the brain is ‘massively modular,’ composed of myriad innate, domain-specific computational mechanisms shaped by evolutionary pressures.9.

Given the evidence of multiple, variable inputs, trainability, cultural variation, and task-specific re-weighting, the equilibrium system looks more ‘nodular’ than ‘modular’; that is, rather than being encapsulated, inaccessible, innate, and pre-programmed by evolution, the equilibrium system looks like a plastic network of sensory inputs differently weighted, neural resources that can learn to interpret different information streams (even from the tongue!), and trainable behavioural patterns.

This dynamic systems modelling of the equilibrium system helps us also to see the many ways that cultural regimes, patterns of experience, explicit coaching, conscious training, and unconscious conditioning might affect the system any one person assembles, and the way that it handles specific sorts of conditions. Malleability can arise in a number of different places in the network.10. For example, extensive training might strengthen connections between certain kinds of visual inputs and the body’s network of perceptual and reflex actions that maintain equilibrium; or the network dedicated to equilibrium could be trained to provide stimulation to the hands, shoulders, arms and other parts of the body necessary to maintain a bananeira, rather than just the legs in normal bipedal posture. The enculturation might happen in modified weighting by the vestibular nucleus, or it might happen in more immediate peripheral modifications to the nervous system (see Notman et al. 2005. Boyden et al. 2004; Broussard and Lisberger 1992; Lisberger et al. 1994.).

Looking at the organic dimensions of cultural embodiment, the way that enculturation affects neurological development and functioning, better allows anthropologists to participate in cognitive science debates. Neuroanthropology can bring to brain sciences a more sophisticated sense of how long-term developmental patterns such as skill training affect profound change in participants. But the effort also brings to anthropology a much more thorough consideration of individual-level experience and embodiment, replacing implausible (and often startlingly simplistic) implicit psychological models with testable, robust biocultural accounts of enculturation.11.

Esta longuíssima citação do artigo de  Greg Downey, e a citação do artigo inicial tem a ver com o exemplo colocado no final do artigo sobre biologia e psi.

Tem outro artigo dele, de por que a ciência do cérebro precisa da antropologia,que é MUITO interessante:

In summary, anthropology can help brain science by offering more sophisticated ways to talk about variation and universal traits (including the universal trait that development is affected by one’s cultural environment) and by offering much better, finer, more material and research-able examples than broad ‘civilization’-scale differences between cultures. To the brain scientists, we can help you with research design as there’s some really fascinating naturally-occurring experiments running out there around the world on how one can grow brains differently. You just have to know where to look, and what you’re seeing when you do find the differences.

Existe vida inteligente nos blogs!

THE SEVEN VOICES, Lisa Samuels — excerpts:

One Hand Keeps the Furniture of Thought from Falling Over

to achieve a particular oasis
of thought, pay attention to the folds inside
one crevice of the wrist
it knows how to be one article of conduct
recognized in the breach
forestall an elemental
by achieving its complex form through an angry insist-
though it protests ence, instantiate
denial, recompense
it through a shadowing that makes itself

one finely shuddered momentary
lapse
when it shakes out the articles
that allow for several pictures
take to be imagined
and adjudicate its reasons
one here for there cements
an ache always detectable
though the wind hits it better when it’s wet
the shutters of intellect
flatten in the light when they hold

at all it is divinity you conquer
the very absence of a reasonableness
is proof
enough of all these compensations
I would choose
the consolatory status of half imagined
the fluid this desire moves
in suffocating angles of air
it finally can isolate a single turning part
by way of altering the mediators

those which allow the particles to be
themselves must be
dismantled every coefficient designed
to make the turn
a filled in balance to have the valency
of achieve held true

1998, Poetry
In The Seven Voices, “each poem is an abstract correlative of a subjective experience, a ‘refraction journal.’ Everything means exactly what it says.” Lisa Samuels writes as if basing language on something it is not; or as if (all) language, having no content, makes the motions of something else. So she deliberately voids the language as a daring means of creating an alternate that isn’t in language as if outside by being the same as language. The writing shapes “A tonal synchrony” in which the senses can correspond to something else (rather than to that synchrony). This correspondence occurs awkwardly by “inaccommodation with the very shape.” Yet the synchrony holds so that “that singularity is a violation of perspective.” She says about The Seven Voices, “The title arises from Gnostic mysticism: the voices are angelic entities inhabiting the Treasury of Light. Apparently there are seven voices.” And “nothing that happens is possible, so continuity and destructuring coexist across the falls.”

[gallery]Bela coluna de José Castello n’ O Globo de hoje, Caderno ProsaeVerso.

Ele começa com Lacan e o olhar ( Seminário 16, trad. Vera Ribeiro – uma fera na tradução; estou lendo agora “A menina que roubava livros”, tradução dela, e é um primor. E já li vários livros de psicanálise traduzidos por ela: impecável).

Voltando a Castello. Ele começa com Lacan e sua “meditação sobre o olhar”: “Não é fácil definir o que é um olhar. Esta chega a ser uma questão que pode muito bem sustentar e devastar uma existência”. O voyeur: “alguém que espia pelo buraco da fechadura aquilo que, verdadeiramente, é o que não se pode ver”. E afirma:

Sempre pensei que grandes ficções são olhares desamparados que se descerram sobre o real. Uma ficção – assim como um olhar, para repetir Lacan – pode sustentar, mas também devastar uma existência.(…) Porque o escritor se parece com o voyeur: ele se contorce diante do real até nele abrir uma fenda – a escrita. Através dela, luta para ver justamente aquilo que lhe é vedado ver.

E nós, leitores, “tateamos o acaso”… Leituras que prestam são as que sustentam uma existência, ou as que as devastam, me sugere Lacan – diz Castello.

Flannery O’Connor diz :

O fato é que os materiais do escritor de ficção são os mais humildes. A ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se você despreza o fato de ser pó, é melhor você nem tentar escrever ficção.

De novo, Castello primoroso:

Ciente da estrutura de pó que sustenta a existência, ela via na literatura o único instrumento capaz de tocá-la ( pergunto: a ela, ou à existência?). Ou, como diz Lacan, o único meio para tentar ver aquilo que não se consegue ver. Como é possível ver o pó, se o que o define é a dispersão?

E termina o artigo:

Se a literatura é uma janela através da qual divisamos o real, o que se vê dessa janela é só um véu.(…) Heráclito: “O homem toca a luz na noite, quando com a visão extinta está morto para si.” Frase que define alguma coisa fundamental na experiência da leitura, reservada só aos que morrem para si. Assim, evaporando-se pela fenda das palavras, podem tocar a luz. Se isso é ver? Não é ver. É um vôo imóvel, que fazemos em nossa poltrona, abraçados a um livro. Isso é literatura.

Sobre a leitura e o leitor:

(…) Mas leituras (e aqui me lembro das lições de Paul Valéry) não são religiões: ficamos com o que nos interessa. O resto se despreza, sem culpa, ou hesitação. (…)

Leio como os que navegam; os que lêem para, em meio a uma tempestade, flutuar. Aos trancos e clarões, como os escritores nos propõem.

E eu, lendo dolorosamente “A menina que roubava livros”, narrado pela Morte. É um tranco e um clarão.

Realmente, não sei como alguém possa ler esse livro, e não falar dele, comentá-lo. Torná-lo parte de sua existência. Como foi, para mim, dentre tantos livros publicados nos últimos 20 anos, o “Insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera.

Mas essa é a experiência do leitor… o que me interessa…

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