No livro “A esperança de Pandora” Bruno Latour escreve um artigo a respeito de quatro cientistas pesquisando a floresta amazônica, tendo a seguinte questão: é o cerrado que avança sobre a floresta, ou é a floresta que readquire seu espaço? Lá, onde floresta e cerrado se misturam, lá está a questão. Em princípio, e por princípio, vale a pena ler o artigo.
Latour começa a partir de um relato antropológico de uma expedição científica à floresta amazônica, em Boa Vista, Roraima . Sua proposta é a de registrar o trabalho dos cientistas do ponto de vista de um antropólogo. Ele os acompanha na sua expedição a uma região onde o cerrado (savana) e a floresta são fronteiriços, gerando uma zona de transição com características híbridas. O problema com o qual a equipe, formada por biólogos e pedólogos (especialistas na análise de solos), se defrontava era o de determinar se naquela região era o cerrado que avançava sobre a floresta ou o contrário.
Mas, o que me interessa mais é o conceito de ” referência circulante” . Latour reune-se aos colegas para fazer um relato da pesquisa em ação… acompanhando a construção de suas práticas de abstração e redução. Latour está se engajando aqui numa questão filosófica muito específica, sobre a natureza da referência, a relação entre a mente(?) e o mundo, a epistemologia, e sobre o estar fazendo uma intervenção sobre como a filosofia da ciência é praticada.
O tema é a prática científica, isto é, as práticas de uma forma muito específica de produção do conhecimento. Quando Latour fala de referência circulante, poderia falar também da produção do conhecimento dos moradores do local, o que geraria outras referências, outras práticas, outros resultados. Mas ele está a falar da prática científica.
O conceito de referência circulante, criado por Latour, pode dar a idéa errada de que ele estaria se referindo ao conceito de significante que circula – à la Lacan, Derrida, Baudrillard. Mas não é.
O problema da referência na filosofia é muito antigo. Nos últimos 300 anos, os filósofos ficaram obcecados com a pergunta de como as palavras se relacionam com as coisas, ou de como a mente representa o mundo. esta relação entre representação e objeto, ou entre palavra e coisa é a relação de referência.
Por exemplo, se pensarmos em Galileu dizendo que é a Terra que gira em torno do Sol… constrói magníficas equações matemáticas, um conjunto de proposições, etc etc que parecem começar a desvendar o mistério, o segredo da natureza. Mas, quando eu olho para o céu, parece não haver nenhuma semelhança entre aquele texto e o mundo; a minha percepção me “diz” que é o Sol que gira em torno da Terra. O mesmo pode ser pensado a respeito da Lei da gravitação universal dos corpos, de Newton, e o movimento dos objetos no mundo?
Eu não chego a essas conclusões – de Galileu, ou de Newton – pelas minhas sensações. Talvez sejam as idéias inatas propostas por Descartes que fazem com que eu descubra essas coisas? Talvez isso funcione no domínio da matemática, mas parece difícil aplicar a ” razão pura” à descoberta de verdades sobre um mundo em mutação ( acho q essa palavra não é boa). E aqui começa a confusão entre representação e coisas, palavras e objetos.
” Latour nota que, ao invés de uma mímese de representação, de um relato espelhando o que está realmente acontecendo ” lá fora”, o que realmente aparece na prática é uma série de translações de minúsculos passos de material para o meio. “Na prática real, entretanto, nunca se viaja diretamente dos objetos para as palavras, do referente para o signo, mas sempre através de um arriscado caminho intermediário” ( Latour). Assim, os cientistas devem transladar um dado pedaço de solo para um mapa do código de Munsell. O conteúdo do solo, a iluminação do local, a condição do pp mapa, e, é claro, a capacidade do pesquisador julgar sutis modulações de cor, tudo isso interage para criar, ao final, um código de cor. Para Latour, isso não é correspondência ou espelho do mundo em representação. Uma série de ações dos pesquisadores e o solo do cerrado são coordenados, são articulados para que o código faça mais do que assemelhar-se ao solo: ” ele assume o lugar da situação original. Assume o lugar do solo para q possa ser integrado a outras informações coletadas no campo – deve ser amalgamado com notações gráficas, nomenclatura estatística, e narrativa textual. Ao invés de uma correspondência do código com o solo, temos uma transformação ativamente manipulada para propósitos específicos.
Latour descreve todo este processo de se movimentar através de uma série de pequenos buracos ( gaps) como a referência circulante. E, como não estamos mais falando da sociedade como espelho da natureza, mas mais como uma série heteogênea de operações que tornam-se possíveis por se considerar a capacidade transformadora do pesquisador e seus meios assim como a capacidade singular dos não-humanos em desenvolver, inibir ou qualificar essa transformação, é melhor chamá-la de mediação. (Webmoor, Reconfiguring Archeological Sensibility).
Portanto, ” referência circulante” significa a série de transformações sofridas pelas coisas ao serem trabalhadas pelos cientistas. A referência “circula” no sentido de que ela se move para frente e para trás ao longo dessa cadeia de mediações e de transformações.