O blog larval-subjects tem sempre temas relevantes para discussão. Em julho de 2006, Sinthome escreveu longamente sobre um tema que me interessa muito: a questão da individuação.
O problema filosófico da individuação é muito discutido em Deleuze. Sinthome se pergunta por que Deleuze fica tão cativado pelo problema medieval do que faz de um indivíduo, um indivíduo, ou de como um indivíduo se distingue de outros indivíduos. Deleuze quer construir um conceito de diferença que não esteja diretamente ligado à questão do primado da identidade ou da representação, e também apela para uma nova maneira de se pensar o que entendemos por indivíduo. E aí entra a contribuição de Gilbert Simondon.
Quando Deleuze discute os conceitos de biologia e teoria da evolução no cap. 5 ( Síntese assimétrica da diferença) de Diferença e repetição, ele argumenta paradoxalmente que para a biologia pós-darwinista o indivíduo precede a espécie, e que as espécies devem ser pensadas como populações ( mais do que classes que possuem uma essência intrínseca) que sofrem várias taxas de mudança e de divergência. No entanto, o que se requer aqui é uma concepção dinâmica de individuação, ou um conceito de individuação como um processo contínuo, mais do que um padrão intrínseco possuído por um indivíduo como um predicado. E é exatamente isso que Simondon propõe, em L’ individuation à la lumière des notions de forme et de information, que segundo Sinthome é uma reedição dos seus livros anteriores L’ individu et sa génèse physico-biologique ( que cheguei a ler há muitos anos) e L’individuation psychique et collective.
Simondon começa por criticar as concepções atomistas, hilomórficas e substancialistas da individuação, pois todas partem do sujeito já constituído. O substancialismo procura o princípio da individuação como intrínseco ao indivíduo; o hilomorfismo considera que a individuação resulta da combinação de forma e matéria. Ambos pensam o indivíduo já constituído, ignorando o processo pelo qual o indivíduo chega a ser.
Contrastando com essas idéias, Simondon propõe que consideremos o indivíduo ontogeneticamente, em um processo contínuo de individuação, como um indivíduo que constantemente está se individualizando. Mas isso exige que rejeitemos qualquer explicação do indivíduo que o focalize sozinho, isolado; devemos vê-lo mais como se individuando, ou tornando-se num meio/milieux. Isto é, deve-se pensar um indivíduo tanto emergindo de um meio como agindo num meio.
Desse ponto de vista, o pensamento de Simondon aproxima-se bastante das filosofias interacionistas de Dewey, Mead ou Bergson, onde o dado primeiro não é representar passivamente o mundo, mas um corpo engajando numa interação com o mundo,levando o mundo a se abrir em ações e movimentos e através deles.
O fundamental é que para Simondon, a individuação não é um resultado, mas um processo contínuo através do qual o indivíduo perpetuamente se constitui como um indivíduo a partir de um campo pré-individual de singularidades ou potencialidades. Isto é, um indivíduo é um processo. Este processo, para Simondon, se dá através de uma resolução de tensões, incompatibilidades e desigualdades que buscam o equilíbrio pertinente ao sistema de potencialidades que habitam o sistema.
Sinthome alerta que em Diferença e repetição, Deleuze, em sua análise das intensidades,afirma exatamente isso: o dado ou o mundo vem a aparecer através das desigualdades/diferenças que cancelam ou se encobrem em “extensidades”. Os fatores intensivos em questão e os processos de equalização devem ser verificados em cada sistema que examinamos. Assim, por exemplo, as intensidades relevantes que caracterizam um sistema social poderiam diferir daquelas de um sistema biológico, um sistema psíquico, um sistema climático, musical, etc.
E aqui Sinthome faz uma interessantíssima comparação com a discussão levada por Al Gore a respeito da evaporação de um grande lago na região de Darfur, devido a uma mudança climática ( Uma verdade inconveniente). Aqui existe uma relação entre o indivíduo e seu meio ( as tribos em guerra na região Darfur/Sudão e o meio onde vivem) sendo igualados de uma maneira particular que não compartilha nenhuma semelhança com o próprio meio. Os escassos recursos de água são absorvidos pelos sistemas social e semiótico não como um problema de recursos, mas como uma luta ideológica e religiosa. Temos uma confirmação, aqui, da afirmação de Luhmann de que os sistemas sempre se relacionam com seu ambiente de acordo com as distinções que eles mesmos estabelecem ( clausura operacional - ver Varela?).
E então, Sinthome dá uma pirueta genial e passa a criticar como Lacan teoriza o Ics e os sintomas, sem explicar porque alguma formação ics específica é atualizada num ponto singular e não noutro. As discussões de Lacan quanto a metáfora e metonímia fornecem os recursos para a análise dessas formações, mas pouco têm a dizer quanto aos processos através dos quais essas formações vêm a ser, nem o sujeito como um processo contínuo. Do ponto de vista da clínica, isso até tem sentido, pois estamos lidando com a estrutura do sujeito, e não dando uma explicação de como esse ou aquele sintoma surgiu ontogeneticamente.
Aliás, quando levantamos essas questões com alguns lacanianos mais militantes, recebemos respostas até hostis sobre como as questões genéticas e do desenvolvimento são irrelevantes para a psicanálise… É claro que essa irritação com o relato baseado no desenvolvimento tem a ver com as apropriações vulgares dos estágios freudianos que os apresentam como inevitáveis e que convergiriam para uma certa unidade; mas isso significa que deveríamos ignorar essas questões?
Claro que existe uma diferença imensa entre uma criança educada entre outros humanos, e uma criança como Genie, criada em extremo confinamento, e essa diferença tem certamente algo a ver com como duas crianças têm seus processos de individuação diferenciados
(http://www.feralchildren.com/en/showchild.php?ch=genie)
E isso não indicaria possibilidades de mudanças benéficas, e novas possibilidades de intervenções analíticas eficazes?
Lacan acaba por descrever implicitamente a ontogênese do indivíduo fora do campo social, apesar de focar a relação entre o indivíduo e seu meio.
Para Sinthome, em muitos aspectos o relato de Simondon do processo de individuaçãotalvez esteja mais próximo da discussão de Freud do processo primário, onde as formações do ics são entendidas como produtos de desequilíbrios no sistema psíquico ( ver o Projeto, de Freud).
Por outro lado, podemos imaginar se o foco de Simondon na equalização/igualação seria consistente com o conceito de pulsão de morte, que é uma tensão inerradicável dentro do sistema psíquico que governa a relação do sujeito com o mundo e com o Outro.
E ele pergunta:
Como seria Lacan se ele focalizasse mais os matemas, estrutura, topologia, etc., do ponto de vista de uma perspectiva de sistemas como modelos de um sistema modelado e de processos, mais do que como estruturas duras e prontas?