A diferença fundamental entre feedback e reentrada é que o feedback baseia-se na existência prévia de um código – seja ele qual for. No fenômeno do feedback, a informação produzida como resultado de uma operação é utilizada para modificar a sequencia das operações. Eu tenho a informação a partir do evento, ou da operação anterior que funciona, para as operações subsequentes, num processo contínuo de auto-regulação. O código é gerado como resultado do “estado atrator”do sistema – dependendo do sistema de que estivermos falando. Por exemplo, os meios de comunicação são regulados pelo código informação/não informação que é determinado pelo fato de um evento repetir ou não um evento anterior – na definição classica, a informação consiste na diferença que faz diferença…
Já a reentrada não precisa de um código; a reentrada é a emergencia da ordem sem um código! Mas como vamos explicar a emergência de sistemas ordenados sem pressupor um código? Ora, para que a informação funcione como informação ( isto é, que faça diferença, acrescente algo à ordem anterior) deve haver um código pre-existente. Os códigos seriam, portanto, uma condição a priori da informação, ou de sua possibilidade, espécie de normas que dirigiriam sua produção.
Mas, e se não existisse código ou um a-priori que desse conta da ordem? Edelman fala da dinâmica da reentrada para explicar esse tipo de emergência. E usa o quarteto de cordas como exemplo, um quarteto de cordas sem pauta…
Although no conductor would instruct or coordinate the group and each player would still maintain his or her style and role, the player’s overall productions would lead to a kind of mutually coherent music that each one acting alone would not produce. ( p. 49)
Gerald Edelman propõe uma teoria não-teleológica para os sistemas neuronais e, mais no início de sua carreira ( quando ele ganhou o Prêmio Nobel), para o sistema imunolõgico. Interessante é que já em1948, Edward Tolman fez experimentos com ratos nos quais se os colocava em labirintos sem nenhuma tarefa definida: eles podiam percorrê-los livremente . Então, Tolman observou que, sem quaisquer recompensas ou objetivos, os ratos em experiências posteriores demonstravam um certo conhecimento do labirinto, atingindo mais rapidamente e com menos erros o alimento. Isto é, ao caminharem sem objetivo, os ratos aprenderam algo… sem necessidade nem de recompensas, nem de punições. Tolman propôs a existência de mapas cognitivos, espécie de schemata/esquemas : estratégias, e não conjunções ou disjunções.
Voltando ao quarteto de cordas: como um idealista transcendental explicaria a coerência dessa pequena sinfonia? Ele responderia que, sem dúvida, os concertistas teriam seguido um conjunto de regras – a pauta musical – que coordena suas ações e seus instrumentos. Ele poderia, até, propor uma teleologia que instruísse as ações dos instrumentistas e avaliaria se o desempenho deles estava ou não de acordo com seus objetivos.
Um amigo filósofo me explicou que, para Deleuze, a obra de arte é, ela mesma, a gênese de uma forma inteiramente nova de sensibilidade, uma emergência a partir do caos, a produção de sua propria ordem. Deleuze se interessa tanto pela estética, não exatamente por que goste de arte, mas por que ele observa na produção artística algo parecido com a ” ontogenia” da percepção e da cognição na criança e, até mesmo em outras espécies. Assim, a informaçãonão está ” lá” desde o início, mas resulta de uma ontogenia; é algo que precisa ser produzido, criado, num processo emergente.
Assim, para Gerald Edelman, a consciência tal como nós a experimentamos continua a emergir a partir de estados cerebrais e processos neuronais sem se reduzir a estes. Ele trabalha a partir de um vasto referencial darwiniano, no qual os cérebros dos membros da nossa espécie são muito semelhantes – por razões evolucionárias - e também diferentes dos cérebros de nossos parentes, também por boas razões evolucionárias. Mas os nossos cérebros individuais, por isso mesmo, desenvolvem suas próprias formas de organização que dão origem aos vários sentidos de self que nós temos.
Uma observação: os lacanianos tendem a ignorar essa literatura, inclusive a concepção de Stephen J. Gould dos “spandrels”para entender as mudanças evolucionárias em termos biológicos. Os spandrels ( tenho de ver a tradução em algum livro dele traduzido para o português) enfeites na arquitetura dos arcos nas catedrais, nos castelos, etc barrocos e que, apesar de lindos e instigantes, parecem não servir para nada…
Konrad Lorenz defende o conceito de teleonomia, criado por Jacques Monod – processo segundo o qual o acaso é fundamental, as regras são transitórias, e os resultados são não intencionais e passageiros. Isto quer dizer que o sistema se orientaria a partir de singularidades.



