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Two roads diverged in a wood, and I -

I took the one less travelled by,

And that has made all the difference.

( Robert Frost!)

… onde um foulcaultiano radical  argumentaria que não existe a realidade em si, mas somente discursos sempre modificados quanto ao que é real, o realista transcendental diria que o objeto permanece o que é , independente do que os vários discursos dizem sobre ele.
O construtivista radical  afirmará ou 1) que o discurso faz o objeto, ou 2) na medida em que existe um mundo radicalmente diferente dos nossos discursos,  podemos somente conhecer o mundo dos nossos discursos. Como Lacan diz, “ o universo é a flor da retórica”.
Por sua vez, o realista afirmará   que existe um mundo de objetos não construídos por nossos discursos e que podemos ter conhecimento dos elementos desse mundo ( conseguido através de um duro trabalho, claro). Consequentemente, enquanto a dimensão transitiva das teorias, crenças, organizações sociais, etc  está sempre mudando, os objetos são eles mesmos intransitivos a esses discursos, e são o que são independente do que dizemos sobre eles. Não são os discursos que fazem desses objetos o que eles são.
Ora, Jerry the Anthropologist afirma que os próprios objetos podem ser transitivos, na medida em que estão também sempre mudando. Isso pode ser visto mais claramente no caso da biologia. Não somente os genes mudam através do tempo pela seleção natural como a teoria evolucionista argumenta, mas se o argumento de Susan Oyama na “Ontogeny of Information” for verdadeiro, essas mudanças se dão no nível do individual. Oyama afirma que não existe uma distinção nítida entre “nature”e “nurture”.

Ora, essa tese é um lugar comum na biologia. Oyama radicaliza ao mostrar como em cada estágio do desenvolvimento temos um constante intercâmbio entre genes, desenvolvimento dos tecidos e ambiente, de tal maneira que não se pode afirmar que essa informação “já estaria lá”( nos genes, por exemplo), mas mais que a informaçào que orienta esse desenvolvimento é na realidade produzida por essa complexa interação. Essa é uma interação muito complexa que se dá no nível das células individuais, por exemplo, na medida em que elas se prejudicam ou se ajudam na emergência de uma  organização   em maior escala. Também é uma interação que se dá num interjogo constante com o meio ambiente, onde fatores tais como temperatura, pressão, nutrientes disponíveis, luz, água, etc. Pesquisas com ratos, por exemplo, indicam que pode ocorrer uma diferença decisiva no desenvolvimento de ratos dependendo da presença ou não de odor do macho .
Além disso, cada estágio do processo ontogenético tanto gera novas fontes de informação do interior das células e do genoma, quanto fecha outras possibilidades.
Lacan observou algo semelhante em estudos sobre desenvolvimento de pombos: em certas espécies de pombos, o desenvolvimento do gênero dependeria de ver outro pombo  se desenvolver de uma maneira específica.

Laço

O que não sei de onde veio

vem do meu pai, do pai dele

do silêncio de um, próximo

superposto ao do outro, longe.

Silêncio de retrato antigo

ouvido por quem não o conheceu

a não ser vazado através

do filho que me fez de carne

e chega ao neto, ao filho

do seu filho, e a meu filho.


Título do documentário sobre a vida do poeta: “Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície”(…)

Outro trecho de poema de Armando:

Por entre os dedos feito areia

dentro das mãos que não seguram e se esvaziam,

a vida foge pelas veias

e o meu corpo não calcula mais seu pulso.


Copiando trecho de Larval subjects

... where a radical Foucaultian might argue that there is no reality in itself but only ever shifting discourses as to what is real, the transcendental realist would argue that the object remains what it is regardless of what various discourses say about it. The radical constructivist will either claim 1) that the discourse makes the object, or 2) while there is a world radically different than the one described by our discourses, we can only know the world of our discourses. As Lacan put it, “the universe is the flower of rhetoric”. The realist, by contrast, will affirm both that there is a world of objects not constructed by our discourses and that we can have knowledge of elements of this world (gained through painstaking labor, of course). Consequently, while the transitive dimension of theories, beliefs, social organizations, etc., are ever changing the objects are themselves intransitive to these discourses and are what they are regardless of what we say about them. It is not the discourses that make these objects what they are.

Now, if I understand Jerry the Anthropologist’s point correctly, it is important to emphasize that objects themselves can be transitive in the sense that they are changing. This can be seen most clearly in the case of biology. Not only do genes change over time through natural selection as argued by evolutionary theory, but, if Susan Oyama’s compelling argument in The Ontogeny of Information is true, these changes take place at the level of the individual. Oyama argues that no neat distinction can be drawn between so-called “nature” and “nurture”.

Now this thesis is a commonplace in biological circles, however, Oyama significantly radicalizes this thesis, showing how at each stage of development, we have a constant interplay between genes, tissue development, and environment such that information cannot be said to be “already there” (in the genes, for example), but rather where information presiding over development is actually produced through this complex interaction. This is a complex interaction that takes place at the level of individual cells, for example, as they either hinder or assist one another in a larger scale emergent organization. It is also an interaction that takes place in constant interplay with an environment where factors such as temperature, pressure, available nutrients, light, moisture, water, etc. Indeed, studies with rats, for example, indicate that a decisive difference is made in rat development depending on whether or not male odor is present in the next at birth. Lacan noted something similar with the development of gender in certain species of pigeons which, apparently, must see another pigeon to develop in a particular way. Further, each stage in the ontogenetic process both generates new sources of information both from within the cells and the genome and closes off other possibilities.

O valor do Rascunho

Parafraseando Anna Veronica Mautner, na Folha SP Equilibrio, como educadora sempre penso em como ensinar os alunos a gostarem de ler, de escrever, de pesquisar: o valor da curiosidade.

Mas, se nem rascunho eles fazem… acham que não tem valor. Ou melhor, acham que as coisas nascem prontas, “assim”, e que re-escrever várias vezes um texto, além de ser uma chatice, é “perda de tempo”.

Aí, cito a dita psicanalista:

O sentido do rascunho era o de permitir correção. Não só permitir como prever. A primeira forma de um trabalho dificilmente pode ser vista como definitiva. Portanto, a primeira formatação é sujeita a modificações e correções.

(…)Rascunho não existe mais, assim como caiu em desuso a borracha. Além disso, a nota de “ordem”, que eu saiba, desapareceu do boletim – ordem deixou de ser importante. Esses fatos aparentemente banais são importantes e influem em todo o processo educacional.

(…) A possibilidade e a necessidade de encarar o que faz, prestar atenção, corrigir uma relação importante consigo mesmo. O alinhavar e o rascunho mostram que acho importante o que estou fazendo e, por isso, presto atenção, corrijo, refaço porque me dou o devido valor.

Há alguns dias, vi com minha filha o DVD de “A lenda”, com Will Smith. O diretor e o ator  destacam que uma das características importantes do personagem , que eles resolveram desenvolver, foi o sentido de ordem, limpeza e disciplina no trato consigo mesmo, apesar do personagem viver absolutamente só. Colocam-se assim contra a estética do sujo, do descuidado, do desmazelado, de   filmes com temas semelhantes, nos quais os personagens vivem num lixo só, sem se preocuparem com esse cuidade de si ( como diria Michel Foucault).

Significativamente, somente eu escutei esse comentário, nos extras do filme. Tivemos de retornar o DVD, para que ela também, muito espantada, o escutasse.

A Mautner tem toda razão…

GINASTAS E CAPOEIRISTAS: PLANTANDO BANANEIRA…

http://neuroanthropology.net/2008/01/01/equilibrium-modularity-and-training-the-brain-body/

Balance between cultures: equilibrium training

Neuroanthropology is a collaborative weblog created to encourage exchanges among anthropology, philosophy, social theory, and the brain sciences. We especially hope to explore the implications of new findings in the neurosciences for our understanding of culture, human development, and behaviour.

Way back in January, I posted ‘Equilibrium, modularity, and training the brain-body.‘http://neuroanthropology.net/2008/01/01/equilibrium-modularity-and-training-the-brain-body/. At the American Anthropology Association annual meeting, I presented my current version of this research, significantly updating it with ethnographic material from Brazil, a comparative discussion of different techniques for training balance, and a series of graphics that I hope help to make my points. The title of that paper was ‘Balancing Between Cultures: A Comparative Neuroanthropology of Equilibrium in Sports and Dance.’

…a new generation of brain research, what Andy Clark (1997) refers to as ‘third wave’ cognitive science, or work on embodied cognition.1 Much of the ‘third wave’ does not focus strictly on what we normally refer to as ‘cognition,’ that is, consciousness, memory, or symbolic reasoning. Rather embodied cognition often highlights other brain activities, such as motor, perceptual and regulatory functions, and the influence of embodiment on thought itself; this is the reason I’m thrilled to have endocrinologist Robert Sapolsky as part of this panel, as his work is part of the expanded engagement of neuroanthropology with organic embodiment.2

Equilibrium: modular or nodular?

This plasticity, however, runs contrary to the argument that equilibrium is an innate human capacity. Philosopher and cognitive theorist Jerry Fodor, for example, writes that the ability to recover equilibrium is ‘a new contender for “best example of a module”’ (Fodor 2000:118, fn. 9).8. A ‘module,’ according to Fodor, is a domain-specific, encapsulated, quick, fixed functional system in the mind, which is inaccessible to conscious thought or information from outside its’ specific domain (Fodor 1983, 1988). Fodor and others interested in modularity build upon arguments in Chomsky’s work (esp. 1980, 1988), but also draw evidence from optical illusions, theory of mind, and localized neuropathology. Leda Cosmides, John Tooby and Steven Pinker, like a number of evolutionary psychologists, have claimed that the brain is ‘massively modular,’ composed of myriad innate, domain-specific computational mechanisms shaped by evolutionary pressures.9.

Given the evidence of multiple, variable inputs, trainability, cultural variation, and task-specific re-weighting, the equilibrium system looks more ‘nodular’ than ‘modular’; that is, rather than being encapsulated, inaccessible, innate, and pre-programmed by evolution, the equilibrium system looks like a plastic network of sensory inputs differently weighted, neural resources that can learn to interpret different information streams (even from the tongue!), and trainable behavioural patterns.

This dynamic systems modelling of the equilibrium system helps us also to see the many ways that cultural regimes, patterns of experience, explicit coaching, conscious training, and unconscious conditioning might affect the system any one person assembles, and the way that it handles specific sorts of conditions. Malleability can arise in a number of different places in the network.10. For example, extensive training might strengthen connections between certain kinds of visual inputs and the body’s network of perceptual and reflex actions that maintain equilibrium; or the network dedicated to equilibrium could be trained to provide stimulation to the hands, shoulders, arms and other parts of the body necessary to maintain a bananeira, rather than just the legs in normal bipedal posture. The enculturation might happen in modified weighting by the vestibular nucleus, or it might happen in more immediate peripheral modifications to the nervous system (see Notman et al. 2005. Boyden et al. 2004; Broussard and Lisberger 1992; Lisberger et al. 1994.).

Looking at the organic dimensions of cultural embodiment, the way that enculturation affects neurological development and functioning, better allows anthropologists to participate in cognitive science debates. Neuroanthropology can bring to brain sciences a more sophisticated sense of how long-term developmental patterns such as skill training affect profound change in participants. But the effort also brings to anthropology a much more thorough consideration of individual-level experience and embodiment, replacing implausible (and often startlingly simplistic) implicit psychological models with testable, robust biocultural accounts of enculturation.11.

Esta longuíssima citação do artigo de  Greg Downey, e a citação do artigo inicial tem a ver com o exemplo colocado no final do artigo sobre biologia e psi.

Tem outro artigo dele, de por que a ciência do cérebro precisa da antropologia,que é MUITO interessante:

In summary, anthropology can help brain science by offering more sophisticated ways to talk about variation and universal traits (including the universal trait that development is affected by one’s cultural environment) and by offering much better, finer, more material and research-able examples than broad ‘civilization’-scale differences between cultures. To the brain scientists, we can help you with research design as there’s some really fascinating naturally-occurring experiments running out there around the world on how one can grow brains differently. You just have to know where to look, and what you’re seeing when you do find the differences.

Existe vida inteligente nos blogs!

THE SEVEN VOICES, Lisa Samuels — excerpts:

One Hand Keeps the Furniture of Thought from Falling Over

to achieve a particular oasis
of thought, pay attention to the folds inside
one crevice of the wrist
it knows how to be one article of conduct
recognized in the breach
forestall an elemental
by achieving its complex form through an angry insist-
though it protests ence, instantiate
denial, recompense
it through a shadowing that makes itself

one finely shuddered momentary
lapse
when it shakes out the articles
that allow for several pictures
take to be imagined
and adjudicate its reasons
one here for there cements
an ache always detectable
though the wind hits it better when it’s wet
the shutters of intellect
flatten in the light when they hold

at all it is divinity you conquer
the very absence of a reasonableness
is proof
enough of all these compensations
I would choose
the consolatory status of half imagined
the fluid this desire moves
in suffocating angles of air
it finally can isolate a single turning part
by way of altering the mediators

those which allow the particles to be
themselves must be
dismantled every coefficient designed
to make the turn
a filled in balance to have the valency
of achieve held true

1998, Poetry
In The Seven Voices, “each poem is an abstract correlative of a subjective experience, a ‘refraction journal.’ Everything means exactly what it says.” Lisa Samuels writes as if basing language on something it is not; or as if (all) language, having no content, makes the motions of something else. So she deliberately voids the language as a daring means of creating an alternate that isn’t in language as if outside by being the same as language. The writing shapes “A tonal synchrony” in which the senses can correspond to something else (rather than to that synchrony). This correspondence occurs awkwardly by “inaccommodation with the very shape.” Yet the synchrony holds so that “that singularity is a violation of perspective.” She says about The Seven Voices, “The title arises from Gnostic mysticism: the voices are angelic entities inhabiting the Treasury of Light. Apparently there are seven voices.” And “nothing that happens is possible, so continuity and destructuring coexist across the falls.”

[gallery]Bela coluna de José Castello n’ O Globo de hoje, Caderno ProsaeVerso.

Ele começa com Lacan e o olhar ( Seminário 16, trad. Vera Ribeiro – uma fera na tradução; estou lendo agora “A menina que roubava livros”, tradução dela, e é um primor. E já li vários livros de psicanálise traduzidos por ela: impecável).

Voltando a Castello. Ele começa com Lacan e sua “meditação sobre o olhar”: “Não é fácil definir o que é um olhar. Esta chega a ser uma questão que pode muito bem sustentar e devastar uma existência”. O voyeur: “alguém que espia pelo buraco da fechadura aquilo que, verdadeiramente, é o que não se pode ver”. E afirma:

Sempre pensei que grandes ficções são olhares desamparados que se descerram sobre o real. Uma ficção – assim como um olhar, para repetir Lacan – pode sustentar, mas também devastar uma existência.(…) Porque o escritor se parece com o voyeur: ele se contorce diante do real até nele abrir uma fenda – a escrita. Através dela, luta para ver justamente aquilo que lhe é vedado ver.

E nós, leitores, “tateamos o acaso”… Leituras que prestam são as que sustentam uma existência, ou as que as devastam, me sugere Lacan – diz Castello.

Flannery O’Connor diz :

O fato é que os materiais do escritor de ficção são os mais humildes. A ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se você despreza o fato de ser pó, é melhor você nem tentar escrever ficção.

De novo, Castello primoroso:

Ciente da estrutura de pó que sustenta a existência, ela via na literatura o único instrumento capaz de tocá-la ( pergunto: a ela, ou à existência?). Ou, como diz Lacan, o único meio para tentar ver aquilo que não se consegue ver. Como é possível ver o pó, se o que o define é a dispersão?

E termina o artigo:

Se a literatura é uma janela através da qual divisamos o real, o que se vê dessa janela é só um véu.(…) Heráclito: “O homem toca a luz na noite, quando com a visão extinta está morto para si.” Frase que define alguma coisa fundamental na experiência da leitura, reservada só aos que morrem para si. Assim, evaporando-se pela fenda das palavras, podem tocar a luz. Se isso é ver? Não é ver. É um vôo imóvel, que fazemos em nossa poltrona, abraçados a um livro. Isso é literatura.

Sobre a leitura e o leitor:

(…) Mas leituras (e aqui me lembro das lições de Paul Valéry) não são religiões: ficamos com o que nos interessa. O resto se despreza, sem culpa, ou hesitação. (…)

Leio como os que navegam; os que lêem para, em meio a uma tempestade, flutuar. Aos trancos e clarões, como os escritores nos propõem.

E eu, lendo dolorosamente “A menina que roubava livros”, narrado pela Morte. É um tranco e um clarão.

Realmente, não sei como alguém possa ler esse livro, e não falar dele, comentá-lo. Torná-lo parte de sua existência. Como foi, para mim, dentre tantos livros publicados nos últimos 20 anos, o “Insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera.

Mas essa é a experiência do leitor… o que me interessa…

Lya Luft, Veja 30 de abril de 2008, a propósito do assassinato da menina de 5 anos Isabella:

A menininha atirada no minúsculo jardim de seu edifício, ainda viva, ficou ali por muito mais que três minutos. Imagino sua alminha atônita e assombrada, no escuro. Ainda presa ao corpo, ainda presente. Na loucura que o caso provoca, porque ela poderia ser nossa criança sobre todas as coisas amada, o que mais me atormenta é a sua solidão. Não a vi, em nenhum momento, abraçada,  levada no colo por alguém desesperado que tentasse lhe devolver a vida que se esvaía, que a cobrisse de beijos, que a regasse de lágrimas, que a carregasse por aí gritando em agonia e pedindo ajuda. O que teria feito a pobre mãe se estivesse presente.
Estava ali deitada, a criança indefesa, como um bicho atropelado com o qual ninguém sabe o que fazer. Na nossa sociedade, em que as sombras mais escuras do nosso lado animal andam vivas e ativas, lá ficou, por um tempo interminável, caída, quebrada, arrebentada, e viva, a menina quase morta. Sozinha.

Contra-exemplo:

E n`O Globo de sábado, 3 de maio,  mais detalhes sobre o  crime do austríaco que encarcerou a filha  por 24 anos, teve 7 filhos com ela, e adotou 3 como se não fossem dele.  O crime foi descoberto porque a filha/neta mais velha ficou gravemente doente, e precisou ser levada pelo pai/avô – e pela mãe/filha- ao hospital. Lá, descobriram num bolso da roupa da jovem um bilhete desesperado escrito pela mãe. E foi esse bilhete que fez o médico desconfiar de algo esquisito, chamar a polícia, fazer um apelo pela televisão para que a família da moça, já em coma, entrasse em contato.
Foi o bilhete desesperado da mãe que permitiu que tudo fosse descoberto.

Alberto Toscano escreveu “Theatre of production:philosophy and individuation”, que é extremamente obscuro para mim. Mas ele apresenta um relato não somente sobre Deleuze, como também das teorias interacionistas do desenvolvimento biológico e cognitivo, Simondon, autopoiese, teoria de sistemas, teoria evolucionária, ontologia relacional, etc etc.

Fala de Deleuze sem os lugares comuns dos conceitos de “linha de fuga”, “nomadismo”… que só atrapalham. Como pensar com Deleuze, e não ser um deleuziano dogmático e chato?’Toscano se dedica ao tema da individuação: como a atualização de indivíduos é possível a partir de um campo pré-individual?

Isso nos exige fazer uma distinção entre a individuação – que explica o processo desse emergir – e o indivíduo já constituído. Toscano faz uma metáfora espacial, o q para Sinthome não é uma boa idéia; um campo pré-individual deveria ser pensado de alguma maneira literalmente como um campo.

Isto é, o pré-individual não é algo como uma coisa, nem um objeto, mas é um campo de potencialidades que vêm a ser atualizadas no indivíduo mas que não compartilham nenhuma semelhança com indivíduo. Deleuze vai se referir a esse campo como um problema, multiplicidade ou Idéia, e o indivíduo seria a resolução desse problema. As potencialidades não pertencem aos indivíduos, mas são os indivíduos que pertencem ao campo de potencialidades a partir do qual emergem ( como o vinho que expressa tudo dos diferentes elementos no solo, no tempo, na chuva, no ar, etc., que produziram as uvas.)

O indivíduo não é a individuação, e se buscarmos nele um princípio de individuação, estaremos fadados ao fracasso, pois estaremos olhando para elementos inatos ou constitucionais na coisa mesma, não no processo através do qual ele emergiu através da resolução de uma série de disparidades e tensões no campo pré-individual ( na medida em que as condições genéticas de um indivíduo – seu campo ou “teatro de produção”não se assemelham ao indivíduo mesmo). Ao pensarmos a individuação como “teatro”, somos convidados por Toscano a afastar nossa atenção dos indivíduos isolados ou atomísticos com suas tendências e qualidades inatas que definem suas disposições, mas mais o palco de uma peça onde elementos disparatados interagem e são problematizados uns em relação aos outros. Deleuze usa o termo “complicação” para descrever essas sínteses de disparidades e suas resoluções, o que evoca, para Sinthome, a co-implicação.

Aliás, Deleuze e Toscano defendem que o ser emerge da disparidade, da desigualdade, ou da própria diferença, e que o indivíduo atualizado é uma síntese e uma resolução dessas desigualdades em novas qualidades, espécies e partes.

Para Toscano, costumamos olhar para as propriedades de um indivíduo atualizado como disposições inatas no indivíduo mesmo, mais do que como resultados da interação com um campo. Deleuze diz que indivíduos de todos os tipos mantêm relações de ressonância com seu campo de potencialidade pré-individuais como uma fonte de novas individuações e o ambiente ou campo no qual emergem, daí perpetuamente se “comunicando”em seu processo de desdobramento da individuação; mas por outro lado, esta abordagem nos permite ver os indivíduos, seres ou entidades como soluções contínuas, processuais, criativas, a um campoproblemático definido positivamente, ou o que Toscano chama de “teatro de produção”, enfatizando a natureza interativa e relacional do processo de individuação, ou como ele não pode ser pensado em termos atomísticos.

—> como podemos sair da multiplicidade para a atualidade de tal maneira que seres unificados sejam vistos como efeitos, produtos ou resultados, mais do que como origens. Isto é, somos convidados a ver como o indivíduo ou a unidade emergem a partir da diferença, mais do que a partir do mesmo. A partir disso, Toscano desenvolve sua concepção de que os indivíduos não devem ser concebidos como átomos independentes, mas como redes complexas de relações.

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