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em busca de interlocuções interessantes

Sobre literatura e o olhar

Bela coluna de José Castello n’ O Globo de hoje, Caderno ProsaeVerso.

Ele começa com Lacan e o olhar ( Seminário 16, trad. Vera Ribeiro - uma fera na tradução; estou lendo agora “A menina que roubava livros”, tradução dela, e é um primor. E já li vários livros de psicanálise traduzidos por ela: impecável).

Voltando a Castello. Ele começa com Lacan e sua “meditação sobre o olhar”: “Não é fácil definir o que é um olhar. Esta chega a ser uma questão que pode muito bem sustentar e devastar uma existência”. O voyeur: “alguém que espia pelo buraco da fechadura aquilo que, verdadeiramente, é o que não se pode ver”. E afirma:

Sempre pensei que grandes ficções são olhares desamparados que se descerram sobre o real. Uma ficção - assim como um olhar, para repetir Lacan - pode sustentar, mas também devastar uma existência.(…) Porque o escritor se parece com o voyeur: ele se contorce diante do real até nele abrir uma fenda - a escrita. Através dela, luta para ver justamente aquilo que lhe é vedado ver.

E nós, leitores, “tateamos o acaso”… Leituras que prestam são as que sustentam uma existência, ou as que as devastam, me sugere Lacan - diz Castello.

Flannery O’Connor diz :

O fato é que os materiais do escritor de ficção são os mais humildes. A ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se você despreza o fato de ser pó, é melhor você nem tentar escrever ficção.

De novo, Castello primoroso:

Ciente da estrutura de pó que sustenta a existência, ela via na literatura o único instrumento capaz de tocá-la ( pergunto: a ela, ou à existência?). Ou, como diz Lacan, o único meio para tentar ver aquilo que não se consegue ver. Como é possível ver o pó, se o que o define é a dispersão?

E termina o artigo:

Se a literatura é uma janela através da qual divisamos o real, o que se vê dessa janela é só um véu.(…) Heráclito: “O homem toca a luz na noite, quando com a visão extinta está morto para si.” Frase que define alguma coisa fundamental na experiência da leitura, reservada só aos que morrem para si. Assim, evaporando-se pela fenda das palavras, podem tocar a luz. Se isso é ver? Não é ver. É um vôo imóvel, que fazemos em nossa poltrona, abraçados a um livro. Isso é literatura.

Sobre a leitura e o leitor:

(…) Mas leituras (e aqui me lembro das lições de Paul Valéry) não são religiões: ficamos com o que nos interessa. O resto se despreza, sem culpa, ou hesitação. (…)

Leio como os que navegam; os que lêem para, em meio a uma tempestade, flutuar. Aos trancos e clarões, como os escritores nos propõem.

E eu, lendo dolorosamente “A menina que roubava livros”, narrado pela Morte. É um tranco e um clarão.

Realmente, não sei como alguém possa ler esse livro, e não falar dele, comentá-lo. Torná-lo parte de sua existência. Como foi, para mim, dentre tantos livros publicados nos últimos 20 anos, o “Insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera.

Mas essa é a experiência do leitor… o que me interessa…

Maio 10, 2008 Escrito por flavia4 | literatura, psicanálise | , , | Não Há Comentários

Menina quase morta, sozinha

Lya Luft, Veja 30 de abril de 2008, a propósito do assassinato da menina de 5 anos Isabella:

A menininha atirada no minúsculo jardim de seu edifício, ainda viva, ficou ali por muito mais que três minutos. Imagino sua alminha atônita e assombrada, no escuro. Ainda presa ao corpo, ainda presente. Na loucura que o caso provoca, porque ela poderia ser nossa criança sobre todas as coisas amada, o que mais me atormenta é a sua solidão. Não a vi, em nenhum momento, abraçada,  levada no colo por alguém desesperado que tentasse lhe devolver a vida que se esvaía, que a cobrisse de beijos, que a regasse de lágrimas, que a carregasse por aí gritando em agonia e pedindo ajuda. O que teria feito a pobre mãe se estivesse presente.
Estava ali deitada, a criança indefesa, como um bicho atropelado com o qual ninguém sabe o que fazer. Na nossa sociedade, em que as sombras mais escuras do nosso lado animal andam vivas e ativas, lá ficou, por um tempo interminável, caída, quebrada, arrebentada, e viva, a menina quase morta. Sozinha.

Contra-exemplo:

E n`O Globo de sábado, 3 de maio,  mais detalhes sobre o  crime do austríaco que encarcerou a filha  por 24 anos, teve 7 filhos com ela, e adotou 3 como se não fossem dele.  O crime foi descoberto porque a filha/neta mais velha ficou gravemente doente, e precisou ser levada pelo pai/avô - e pela mãe/filha- ao hospital. Lá, descobriram num bolso da roupa da jovem um bilhete desesperado escrito pela mãe. E foi esse bilhete que fez o médico desconfiar de algo esquisito, chamar a polícia, fazer um apelo pela televisão para que a família da moça, já em coma, entrasse em contato.
Foi o bilhete desesperado da mãe que permitiu que tudo fosse descoberto.

Maio 6, 2008 Escrito por flavia4 | 1 | | Não Há Comentários

Teorias interacionistas do desenvolvimento biológico e cognitivo

Alberto Toscano escreveu “Theatre of production:philosophy and individuation”, que é extremamente obscuro para mim. Mas ele apresenta um relato não somente sobre Deleuze, como também das teorias interacionistas do desenvolvimento biológico e cognitivo, Simondon, autopoiese, teoria de sistemas, teoria evolucionária, ontologia relacional, etc etc.

Fala de Deleuze sem os lugares comuns dos conceitos de “linha de fuga”, “nomadismo”… que só atrapalham. Como pensar com Deleuze, e não ser um deleuziano dogmático e chato?’Toscano se dedica ao tema da individuação: como a atualização de indivíduos é possível a partir de um campo pré-individual?

Isso nos exige fazer uma distinção entre a individuação - que explica o processo desse emergir - e o indivíduo já constituído. Toscano faz uma metáfora espacial, o q para Sinthome não é uma boa idéia; um campo pré-individual deveria ser pensado de alguma maneira literalmente como um campo.

Isto é, o pré-individual não é algo como uma coisa, nem um objeto, mas é um campo de potencialidades que vêm a ser atualizadas no indivíduo mas que não compartilham nenhuma semelhança com indivíduo. Deleuze vai se referir a esse campo como um problema, multiplicidade ou Idéia, e o indivíduo seria a resolução desse problema. As potencialidades não pertencem aos indivíduos, mas são os indivíduos que pertencem ao campo de potencialidades a partir do qual emergem ( como o vinho que expressa tudo dos diferentes elementos no solo, no tempo, na chuva, no ar, etc., que produziram as uvas.)

O indivíduo não é a individuação, e se buscarmos nele um princípio de individuação, estaremos fadados ao fracasso, pois estaremos olhando para elementos inatos ou constitucionais na coisa mesma, não no processo através do qual ele emergiu através da resolução de uma série de disparidades e tensões no campo pré-individual ( na medida em que as condições genéticas de um indivíduo - seu campo ou “teatro de produção”não se assemelham ao indivíduo mesmo). Ao pensarmos a individuação como “teatro”, somos convidados por Toscano a afastar nossa atenção dos indivíduos isolados ou atomísticos com suas tendências e qualidades inatas que definem suas disposições, mas mais o palco de uma peça onde elementos disparatados interagem e são problematizados uns em relação aos outros. Deleuze usa o termo “complicação” para descrever essas sínteses de disparidades e suas resoluções, o que evoca, para Sinthome, a co-implicação.

Aliás, Deleuze e Toscano defendem que o ser emerge da disparidade, da desigualdade, ou da própria diferença, e que o indivíduo atualizado é uma síntese e uma resolução dessas desigualdades em novas qualidades, espécies e partes.

Para Toscano, costumamos olhar para as propriedades de um indivíduo atualizado como disposições inatas no indivíduo mesmo, mais do que como resultados da interação com um campo. Deleuze diz que indivíduos de todos os tipos mantêm relações de ressonância com seu campo de potencialidade pré-individuais como uma fonte de novas individuações e o ambiente ou campo no qual emergem, daí perpetuamente se “comunicando”em seu processo de desdobramento da individuação; mas por outro lado, esta abordagem nos permite ver os indivíduos, seres ou entidades como soluções contínuas, processuais, criativas, a um campoproblemático definido positivamente, ou o que Toscano chama de “teatro de produção”, enfatizando a natureza interativa e relacional do processo de individuação, ou como ele não pode ser pensado em termos atomísticos.

—> como podemos sair da multiplicidade para a atualidade de tal maneira que seres unificados sejam vistos como efeitos, produtos ou resultados, mais do que como origens. Isto é, somos convidados a ver como o indivíduo ou a unidade emergem a partir da diferença, mais do que a partir do mesmo. A partir disso, Toscano desenvolve sua concepção de que os indivíduos não devem ser concebidos como átomos independentes, mas como redes complexas de relações.

Março 17, 2008 Escrito por flavia4 | filosofia, filosofia da biologia | | Não Há Comentários

Individuação e Simondon

O blog larval-subjects tem sempre temas relevantes para discussão. Em julho de 2006, Sinthome escreveu longamente sobre um tema que me interessa muito: a questão da individuação.

O problema filosófico da individuação é muito discutido em Deleuze. Sinthome se pergunta por que Deleuze fica tão cativado pelo problema medieval do que faz de um indivíduo, um indivíduo, ou de como um indivíduo se distingue de outros indivíduos. Deleuze quer construir um conceito de diferença que não esteja diretamente ligado à questão do primado da identidade ou da representação, e também apela para uma nova maneira de se pensar o que entendemos por indivíduo. E aí entra a contribuição de Gilbert Simondon.

Quando Deleuze discute os conceitos de biologia e teoria da evolução no cap. 5 ( Síntese assimétrica da diferença) de Diferença e repetição, ele argumenta paradoxalmente que para a biologia pós-darwinista o indivíduo precede a espécie, e que as espécies devem ser pensadas como populações ( mais do que classes que possuem uma essência intrínseca) que sofrem várias taxas de mudança e de divergência. No entanto, o que se requer aqui é uma concepção dinâmica de individuação, ou um conceito de individuação como um processo contínuo, mais do que um padrão intrínseco possuído por um indivíduo como um predicado. E é exatamente isso que Simondon propõe, em L’ individuation à la lumière des notions de forme et de information, que segundo Sinthome é uma reedição dos seus livros anteriores L’ individu et sa génèse physico-biologique ( que cheguei a ler há muitos anos) e L’individuation psychique et collective.

Simondon começa por criticar as concepções atomistas, hilomórficas e substancialistas da individuação, pois todas partem do sujeito já constituído. O substancialismo procura o princípio da individuação como intrínseco ao indivíduo; o hilomorfismo considera que a individuação resulta da combinação de forma e matéria. Ambos pensam o indivíduo já constituído, ignorando o processo pelo qual o indivíduo chega a ser.

Contrastando com essas idéias, Simondon propõe que consideremos o indivíduo ontogeneticamente, em um processo contínuo de individuação, como um indivíduo que constantemente está se individualizando. Mas isso exige que rejeitemos qualquer explicação do indivíduo que o focalize sozinho, isolado; devemos vê-lo mais como se individuando, ou tornando-se num meio/milieux. Isto é, deve-se pensar um indivíduo tanto emergindo de um meio como agindo num meio.

Desse ponto de vista, o pensamento de Simondon aproxima-se bastante das filosofias interacionistas de Dewey, Mead ou Bergson, onde o dado primeiro não é representar passivamente o mundo, mas um corpo engajando numa interação com o mundo,levando o mundo a se abrir em ações e movimentos e através deles.

O fundamental é que para Simondon, a individuação não é um resultado, mas um processo contínuo através do qual o indivíduo perpetuamente se constitui como um indivíduo a partir de um campo pré-individual de singularidades ou potencialidades. Isto é, um indivíduo é um processo. Este processo, para Simondon, se dá através de uma resolução de tensões, incompatibilidades e desigualdades que buscam o equilíbrio pertinente ao sistema de potencialidades que habitam o sistema.

Sinthome alerta que em Diferença e repetição, Deleuze, em sua análise das intensidades,afirma exatamente isso: o dado ou o mundo vem a aparecer através das desigualdades/diferenças que cancelam ou se encobrem em “extensidades”. Os fatores intensivos em questão e os processos de equalização devem ser verificados em cada sistema que examinamos. Assim, por exemplo, as intensidades relevantes que caracterizam um sistema social poderiam diferir daquelas de um sistema biológico, um sistema psíquico, um sistema climático, musical, etc.

E aqui Sinthome faz uma interessantíssima comparação com a discussão levada por Al Gore a respeito da evaporação de um grande lago na região de Darfur, devido a uma mudança climática ( Uma verdade inconveniente). Aqui existe uma relação entre o indivíduo e seu meio ( as tribos em guerra na região Darfur/Sudão e o meio onde vivem) sendo igualados de uma maneira particular que não compartilha nenhuma semelhança com o próprio meio. Os escassos recursos de água são absorvidos pelos sistemas social e semiótico não como um problema de recursos, mas como uma luta ideológica e religiosa. Temos uma confirmação, aqui, da afirmação de Luhmann de que os sistemas sempre se relacionam com seu ambiente de acordo com as distinções que eles mesmos estabelecem ( clausura operacional - ver Varela?).

E então, Sinthome dá uma pirueta genial e passa a criticar como Lacan teoriza o Ics e os sintomas, sem explicar porque alguma formação ics específica é atualizada num ponto singular e não noutro. As discussões de Lacan quanto a metáfora e metonímia fornecem os recursos para a análise dessas formações, mas pouco têm a dizer quanto aos processos através dos quais essas formações vêm a ser, nem o sujeito como um processo contínuo. Do ponto de vista da clínica, isso até tem sentido, pois estamos lidando com a estrutura do sujeito, e não dando uma explicação de como esse ou aquele sintoma surgiu ontogeneticamente.

Aliás, quando levantamos essas questões com alguns lacanianos mais militantes, recebemos respostas até hostis sobre como as questões genéticas e do desenvolvimento são irrelevantes para a psicanálise… É claro que essa irritação com o relato baseado no desenvolvimento tem a ver com as apropriações vulgares dos estágios freudianos que os apresentam como inevitáveis e que convergiriam para uma certa unidade; mas isso significa que deveríamos ignorar essas questões?

Claro que existe uma diferença imensa entre uma criança educada entre outros humanos, e uma criança como Genie, criada em extremo confinamento, e essa diferença tem certamente algo a ver com como duas crianças têm seus processos de individuação diferenciados

(http://www.feralchildren.com/en/showchild.php?ch=genie)

E isso não indicaria possibilidades de mudanças benéficas, e novas possibilidades de intervenções analíticas eficazes?

Lacan acaba por descrever implicitamente a ontogênese do indivíduo fora do campo social, apesar de focar a relação entre o indivíduo e seu meio.

Para Sinthome, em muitos aspectos o relato de Simondon do processo de individuaçãotalvez esteja mais próximo da discussão de Freud do processo primário, onde as formações do ics são entendidas como produtos de desequilíbrios no sistema psíquico ( ver o Projeto, de Freud).

Por outro lado, podemos imaginar se o foco de Simondon na equalização/igualação seria consistente com o conceito de pulsão de morte, que é uma tensão inerradicável dentro do sistema psíquico que governa a relação do sujeito com o mundo e com o Outro.

E ele pergunta:

Como seria Lacan se ele focalizasse mais os matemas, estrutura, topologia, etc., do ponto de vista de uma perspectiva de sistemas como modelos de um sistema modelado e de processos, mais do que como estruturas duras e prontas?

Março 16, 2008 Escrito por flavia4 | filosofia, psicanálise | | Não Há Comentários

Outro poeta: Wallace Stevens

Incomparável…

ver www.poets.org

Fevereiro 22, 2008 Escrito por flavia4 | 1 | | Não Há Comentários

Nebulosidade Variável

Este é o título do livro de uma escritora espanhola, Carmen Martín Gaite, ( 1925 -), publicado em 1992 , e que foi lindamente traduzido por Sergio Molina em 1997 ( Companhia das Letras). Conta a história de duas amigas de adolescência que se reencontram após 30 anos de afastamento, e se falam por carta. Uma é psiquiatra e psicanalista, a outra mãe de 3 filhos adultos jovens e dona-de-casa, casada com um executivo emergente.

O livro não somente conta uma história, mas faz literatura, brinca com as palavras. A autora as escolhe cuidadosamente, fazendo frequentemente poesia em prosa.

O início:

PROBLEMAS DE ENCANAMENTO

Ontem, depois de quase dois meses de tempo instável e aguaceiros intermitentes, que para os campos parecem ter sido uma bênção, por fim rebentou a primavera e eu a senti bulindo provocativa através dos vidros da janela. Foi a sombra fugaz de uma pomba que revelou, ao desaparecer, essa torrente de luz que tudo invadiu com o assalto de seu chamado, um puxão anacrônico para aventuras já impossíveis.

Outro trecho:

Mas o problema é que eu também descartava as outras ( perguntas) que me vinham à mente. Todas me pareciam um remendo grosseiro sobre aquele rasgão de silêncio que se alargava e bifurcava em dois leitos divergentes, o dela e o meu, cada um arrastando seu próprio sedimento, ensombrecidos pela mesma serpenntina negra.

Fevereiro 11, 2008 Escrito por flavia4 | 1 | | Não Há Comentários

Uma Poesia de Jorie Graham

Mind

by Jorie Graham

The slow overture of rain,
each drop breaking
without breaking into
the next, describes
the unrelenting, syncopated
mind. Not unlike
the hummingbirds
imagining their wings
to be their heart, and swallows
believing the horizon
to be a line they lift
and drop. What is it
they cast for? The poplars,
advancing or retreating,
lose their stature
equally, and yet stand firm,
making arrangements
in order to become
imaginary. The city
draws the mind in streets,
and streets compel it
from their intersections
where a little
belongs to no one. It is
what is driven through
all stationary portions
of the world, gravity’s
stake in things, the leaves,
pressed against the dank
window of November
soil, remain unwelcome
till transformed, parts
of a puzzle unsolvable
till the edges give a bit
and soften. See how
then the picture becomes clear,
the mind entering the ground
more easily in pieces,
and all the richer for it.

Vim a conhecer a poesia de Jorie Graham há pouco tempo. Ela me impressionou por ser algo forte, como a poesia de Sofia de Mello Brayner Andresen, linda poeta portuguesa falecida há alguns anos. Ambas falam a partir de uma sensibilidade feminina, como a de Emily Dickinson. É uma dimensão “lírica que vai além do meramente pessoal e do meramente social(…) imantada pelas sensações.”(Arthur Nestrovski)

Sem Título (trecho) - ainda Jorie Graham

…Dei por mim encostada na vidraça, o corpo embaixo de mim sem roupa,

E a tardividade sem diferença da sombra ao meu redor,

e nada de verdadeiro, nada desnorteado em forma ao meu redor. 

Lá fora, luzes brilhando, escuridão profunda. 

(tradução de Nestrovski )

Se me interesso por sinestesia, é porque tem a ver com esse tipo de sensibilidade, que é capaz de colocar em palavras sensações,   micro-sensações  muitas vezes esquecidas, e somente reveladas na materialidade do corpo. Inclusive no seu sofrimento - e  a existência da psicossomática, mesmo com todos os problemas metodológicos e epistemológicos que carrega.

Fevereiro 10, 2008 Escrito por flavia4 | poesia | | Não Há Comentários

Courbet 2

Neste fim de semana procurei no livro Paisagem e memória, de Simon Schama, referências a Courbet. E lá estavam duas páginas! Ele compara as telas de grutas, entradas de grutas, e a da origem do rio Loue ( uma belíssima gruta) com a famosa tela “Origem do mundo”, que mencionei antes. Não precisa ser um Freud para estabelecer essas relações entre gruta, origens, etc, e a vulva da mulher. Mas é fantástico o comentário de Schama. Ele é muito detalhista, e acaba ficando chato, mas sempre leio trechos desse livro, de que gosto muito.

Mas não dá para ler de uma vez só.

Fevereiro 7, 2008 Escrito por flavia4 | arte | | Não Há Comentários

A educação pela pedra e Courbet

 Jorge Coli, nesse domingo na Folha de SP ( de novo!),   fala da última exposição de Gustave Courbet (1819-1877) em Paris. O artigo se chama “A origem dos mundos”, acho que se referindo a uma tela considerada es-can-da-lo-sa em que Courbet retrata uma vulva em close… de onde o mundo teria surgido. Sempre gostei muito de Courbet, principalmente das  paisagens, das marinhas ( como adoro as de Pancetti, tão diferentes) e dos nus femininos.

Mas gostei desse artigo de duas coisas. Primeiro, como Coli explica que obras de arte  ”possuem um núcleo estável no qual se entrelaçam as pulsões criadoras”, mas  se modificam: pela ação do tempo, pelos deslocamentos que mudam a percepção ( ex: obras religiosas apresentadas em museus), pela sucessiva tradução que sofrem para a cultura que as contempla - sensibilidades de cada geração.

Depois, quando Coli diz:

A retrospectiva de Courbet é muito bela. Beleza da matéria, dos tons graves e surdos, do silêncio meditativo sobre os mistérios telúricos, vegetais ou corpóreos. Beleza da gravidade pictural que vai além da idéia, do conceito, da formulação lógica.

E cita uma frase de Courbet que eu já conhecia: “Faço as pedras pensarem”.

Claro que para nós, brasileiros, a conexão com João Cabral de Melo Neto é imediata:

“Uma educação pela pedra: por lições;

Para aprender da pedra, frequentá-la;

Captar sua voz inefática, impessoal(…)

Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

Uma pedra de nascença, entranha a alma”.

Acho também que Coli tem uma leve sinestesia… assim como Courbet, claro.

Fevereiro 4, 2008 Escrito por flavia4 | arte, sinestesia | | Não Há Comentários

Nascido num dia azul

“Born on a blue day “: Comprei este livro no início de 2007, logo que o vi. Há vários anos tenho grande interesse pela sinestesia, fenômeno que tem sido estudado por Cytowic. O autor dessa autobiografia precoce, Daniel Tammet, foi diagnosticado já adulto como portador de Síndrome de Asperger: é savant para cálculos e aprendizado de línguas, e apresenta sinestesia de maneira impressionante.

Numa entrevista dada ao caderno Equilíbrio, da Folha de São Paulo de 10/01/08, ele conta que é muito procurado por pessoas comuns, mas que se identificaram com ele em seu relato da infância e das experiências de excliusão na escola. Para Tammet, isso significa que ele conseguiu tocar as pessoas em aspectos comuns a todos, ou a quase todos… Acho que isso também aconteceu no filme dirigido por Jodie Foster, sobre um menino superdotado e suas vicissitudes. Vários amigos já confessaram terem se emocionado muito com o filme, identificando-se com o protagonista. Isso parece ter ocorrido não somente por desenvolver o tema com grande sensibilidade, como também por tocar nos temas da solidão na infância, da exclusão e do sofrimento/desamparo.

Tanto o livro como o filme descrevem situações em família em que as crianças se sentem, e são efetivamente muito amadas por seus pais ( e seus irmãos, como no livro) . Não se trata, portanto, de abandono. Atenua o desamparo - o que já é muito - mas este e o sentimento de solidão ( como mostra Melanie Klein, num trabalho atualmente pouco citado) permanecem. Freud estava certo, então, ao falar de desamparo no Mal Estar na Civilização e n’ O Futuro de uma Ilusão.

Pegando carona em Frances Tustin e Thomas Ogden, então, poderíamos pensar que o autismo como posição subjetiva ( como propõe Ogden) faz parte do espectro humano… É claro que não falo aqui do transtorno do desenvolvimento infantil catalogado na DSM; as explicações psicanalíticas de Tustin e de outros para o autismo são atualmente lamentáveis, indo de encontro a tudo que se tem pesquisado nos últimos anos.

Dentro do próprio espectro autista, existem desde os de alto desempenho, como o pianista Glenn Gould, a bióloga Temple Grandin, e Daniel Tammet, e aqueles que têm o autismo infantil clássico, que pode ser devastador. Oliver Sacks, em “Um antropólogo em Marte” , diz:

Se a síndrome de Asperger é radicalmente diferente do autismo infantil clássico ( numa criança de três anos, todas as formas de autismo podem parecer as mesmas), ou se há uma continuidade entre os casos mais graves de autismo infantil (acompanhados, talvez, por retardo mental e vários problemas neurológicos)e os indivíduos mais dotados e com altos desempenhos, ainda é motivo de discussão. (…) Também não está claro se essa continuidade deveria ser estendida para incluir a posse de “traços autistas” isolados - preocupações e fixações intensas e peculiares, em geral associadas a uma relativa distância e recuo social - , como como se percebe em uma quantidade de pessoas convencionalmente chamadas de “normais” ou vistas, no máximo, como um pouco estranhas, excêntricas, pedantes ou reclusas. (pag. 256)

A psicanálise apresenta o desamparo como registro psíquico inescapável, podendo ser atenuado ou acirrado por circunstâncias de vida e de temperamento difíceis. Desse ponto de vista, podemos pensar que essas diferenças pessoais não precisariam ser catalogadas como num espectro autista, e sim num espectro humano… Afinal de contas,  a diversidade intra-espécie, como explica a teoria da seleção natural, é fundamental para a sobrevivência da espécie - no caso, a espécie homo sapiens sapiens.

    Janeiro 29, 2008 Escrito por flavia4 | 1, psicanálise, psicologia do desenvolvimento | | Não Há Comentários