Alberto Toscano escreveu “Theatre of production:philosophy and individuation”, que é extremamente obscuro para mim. Mas ele apresenta um relato não somente sobre Deleuze, como também das teorias interacionistas do desenvolvimento biológico e cognitivo, Simondon, autopoiese, teoria de sistemas, teoria evolucionária, ontologia relacional, etc etc.
Fala de Deleuze sem os lugares comuns dos conceitos de “linha de fuga”, “nomadismo”… que só atrapalham. Como pensar com Deleuze, e não ser um deleuziano dogmático e chato?’Toscano se dedica ao tema da individuação: como a atualização de indivíduos é possível a partir de um campo pré-individual?
Isso nos exige fazer uma distinção entre a individuação – que explica o processo desse emergir – e o indivíduo já constituído. Toscano faz uma metáfora espacial, o q para Sinthome não é uma boa idéia; um campo pré-individual deveria ser pensado de alguma maneira literalmente como um campo.
Isto é, o pré-individual não é algo como uma coisa, nem um objeto, mas é um campo de potencialidades que vêm a ser atualizadas no indivíduo mas que não compartilham nenhuma semelhança com indivíduo. Deleuze vai se referir a esse campo como um problema, multiplicidade ou Idéia, e o indivíduo seria a resolução desse problema. As potencialidades não pertencem aos indivíduos, mas são os indivíduos que pertencem ao campo de potencialidades a partir do qual emergem ( como o vinho que expressa tudo dos diferentes elementos no solo, no tempo, na chuva, no ar, etc., que produziram as uvas.)
O indivíduo não é a individuação, e se buscarmos nele um princípio de individuação, estaremos fadados ao fracasso, pois estaremos olhando para elementos inatos ou constitucionais na coisa mesma, não no processo através do qual ele emergiu através da resolução de uma série de disparidades e tensões no campo pré-individual ( na medida em que as condições genéticas de um indivíduo – seu campo ou “teatro de produção”não se assemelham ao indivíduo mesmo). Ao pensarmos a individuação como “teatro”, somos convidados por Toscano a afastar nossa atenção dos indivíduos isolados ou atomísticos com suas tendências e qualidades inatas que definem suas disposições, mas mais o palco de uma peça onde elementos disparatados interagem e são problematizados uns em relação aos outros. Deleuze usa o termo “complicação” para descrever essas sínteses de disparidades e suas resoluções, o que evoca, para Sinthome, a co-implicação.
Aliás, Deleuze e Toscano defendem que o ser emerge da disparidade, da desigualdade, ou da própria diferença, e que o indivíduo atualizado é uma síntese e uma resolução dessas desigualdades em novas qualidades, espécies e partes.
Para Toscano, costumamos olhar para as propriedades de um indivíduo atualizado como disposições inatas no indivíduo mesmo, mais do que como resultados da interação com um campo. Deleuze diz que indivíduos de todos os tipos mantêm relações de ressonância com seu campo de potencialidade pré-individuais como uma fonte de novas individuações e o ambiente ou campo no qual emergem, daí perpetuamente se “comunicando”em seu processo de desdobramento da individuação; mas por outro lado, esta abordagem nos permite ver os indivíduos, seres ou entidades como soluções contínuas, processuais, criativas, a um campoproblemático definido positivamente, ou o que Toscano chama de “teatro de produção”, enfatizando a natureza interativa e relacional do processo de individuação, ou como ele não pode ser pensado em termos atomísticos.
—> como podemos sair da multiplicidade para a atualidade de tal maneira que seres unificados sejam vistos como efeitos, produtos ou resultados, mais do que como origens. Isto é, somos convidados a ver como o indivíduo ou a unidade emergem a partir da diferença, mais do que a partir do mesmo. A partir disso, Toscano desenvolve sua concepção de que os indivíduos não devem ser concebidos como átomos independentes, mas como redes complexas de relações.