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Sobre literatura e o olhar

Bela coluna de José Castello n’ O Globo de hoje, Caderno ProsaeVerso.

Ele começa com Lacan e o olhar ( Seminário 16, trad. Vera Ribeiro - uma fera na tradução; estou lendo agora “A menina que roubava livros”, tradução dela, e é um primor. E já li vários livros de psicanálise traduzidos por ela: impecável).

Voltando a Castello. Ele começa com Lacan e sua “meditação sobre o olhar”: “Não é fácil definir o que é um olhar. Esta chega a ser uma questão que pode muito bem sustentar e devastar uma existência”. O voyeur: “alguém que espia pelo buraco da fechadura aquilo que, verdadeiramente, é o que não se pode ver”. E afirma:

Sempre pensei que grandes ficções são olhares desamparados que se descerram sobre o real. Uma ficção - assim como um olhar, para repetir Lacan - pode sustentar, mas também devastar uma existência.(…) Porque o escritor se parece com o voyeur: ele se contorce diante do real até nele abrir uma fenda - a escrita. Através dela, luta para ver justamente aquilo que lhe é vedado ver.

E nós, leitores, “tateamos o acaso”… Leituras que prestam são as que sustentam uma existência, ou as que as devastam, me sugere Lacan - diz Castello.

Flannery O’Connor diz :

O fato é que os materiais do escritor de ficção são os mais humildes. A ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se você despreza o fato de ser pó, é melhor você nem tentar escrever ficção.

De novo, Castello primoroso:

Ciente da estrutura de pó que sustenta a existência, ela via na literatura o único instrumento capaz de tocá-la ( pergunto: a ela, ou à existência?). Ou, como diz Lacan, o único meio para tentar ver aquilo que não se consegue ver. Como é possível ver o pó, se o que o define é a dispersão?

E termina o artigo:

Se a literatura é uma janela através da qual divisamos o real, o que se vê dessa janela é só um véu.(…) Heráclito: “O homem toca a luz na noite, quando com a visão extinta está morto para si.” Frase que define alguma coisa fundamental na experiência da leitura, reservada só aos que morrem para si. Assim, evaporando-se pela fenda das palavras, podem tocar a luz. Se isso é ver? Não é ver. É um vôo imóvel, que fazemos em nossa poltrona, abraçados a um livro. Isso é literatura.

Sobre a leitura e o leitor:

(…) Mas leituras (e aqui me lembro das lições de Paul Valéry) não são religiões: ficamos com o que nos interessa. O resto se despreza, sem culpa, ou hesitação. (…)

Leio como os que navegam; os que lêem para, em meio a uma tempestade, flutuar. Aos trancos e clarões, como os escritores nos propõem.

E eu, lendo dolorosamente “A menina que roubava livros”, narrado pela Morte. É um tranco e um clarão.

Realmente, não sei como alguém possa ler esse livro, e não falar dele, comentá-lo. Torná-lo parte de sua existência. Como foi, para mim, dentre tantos livros publicados nos últimos 20 anos, o “Insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera.

Mas essa é a experiência do leitor… o que me interessa…

Maio 10, 2008 - Escrito por flavia4 | literatura, psicanálise | , , | Não Há Comentários

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