The Brain—is wider than the Sky—
Emily Dickinson
The Brain—is wider than the Sky
For—put them side by side—
The one the other will contain
With ease—and You—beside—
The Brain is deeper than the sea—
For—hold them—Blue to Blue—
The one the other will absorb—
As Sponges—Buckets—do—
The Brain is just the weight of God—
For—Heft them—Pound for Pound—
And they will differ—if they do—
As Syllable from Sound
Primeiro, o poema de Emily Dickinson que dá o título ao livro que vou comentar. Esta é a origem do título, comparando o cérebro e océu -na visão sempre inesperada e sutil de Dickinson. Acho que ela é minha poeta favorita.
Agora, ao comentário.
Resolvi complementar o que escrevi sobre Gerald Edelman, para poder organizar melhor meus pensamentos sobre esse autor.
Wider than the Sky é o penúltimo livro de Gerald Edelman, onde ele faz um resumo de seu trabalho sobre as bases neurais da consciência. Podemos nos remeter aos livros anteriores dele para entender alguns conceitos que Edelman não detalha neste livro.
Edelman ocupa uma posição peculiar nas neurociências. Segundo alguns críticos, ele insiste em ignorar o trabalho dos outros pesquisadores que podem ser considerados de várias maneiras com pontos de contato com a teoria dele.
Mas Edelman nos oferece uma teoria bastante plausível de como a consciência é gerada, como ela funciona no cérebro. Sua tese básica é o “ darwinismo neural”: ele argumenta que tanto o crescimento como a conexão dos neurônios durante o desenvolvimento fetal e na infância, e a ativação dos neurônios na memória e em resposta ao ambiente são governados por um processo semelhante ao da seleção darwiniana. Cabe observar que Edelman ganhou um Prêmio Nobel por seu trabalho que mostra que esses mecanismos de seleção funcionam no sistema imunológico dos mamíferos, onde populações de anticorpos mudam ( têm mutações) e crescem em resposta a infecções.
Grupos de neurônios são selecionados com base em sua eficácia em responder aos múltiplos estímulos provenientes do mundo externo, e em classificar e responder a esses estímulos em termos de categorias derivadas das experiências prévias lembradas – Edelman as chama de memória de categoria-valor. A consciência surge como resultado da “ reentrada”, um processo diferente do feedback ( grupos de neurônios que têm suas atividades coordenadas em paralelo, o que permite a percepção unificada dos estímulos. Edelman diz que a reentrada “ permite a emergência dos eventos de maneira coerente e sincronizada no cérebro” ). Esses eventos são o que poderíamos chamar de conteúdos da consciência, e os processos de reentrada explicam como a consciência pode ser tanto unificada quanto extremamente diversificada e em contínua mutação.
Existem muito mais detalhes, envolvendo atenção, emoção, a diferença entre consciência primária e consciência de ordem superior ( que chamaríamos de consciência reflexiva, ou autoconsciência, dependente da linguagem simbólica característica dos humanos). Esta somente emerge com a presença da linguagem, embora Edelman, tal como Damásio, pense na possibilidade de versões mais primitivas da consciência nos grandes macacos.
Edelman insiste que em qualquer explicação da consciência “ princípios da física devem ser estritamente obedecidos e (…) o mundo definido pela física é causalmente fechado. Não podem ser incluídas forças “alienígenas” que contrariem a termodinâmica” (114). A teoria de Edelman poderia ser “ metafísica” no sentido jamesiano de metafísica, pois ao abordar a diferença entre estados neurais observáveis do exterior e o sentimento consciente interno, Edelman rejeita tanto as teorias que dariam eficácia causal à consciência e à vontade, quanto aquelas teorias que descartam a consciência como “ mero epifenômeno”. Na verdade, Edelman diz que a consciência é mais epifenomenal do que causal: ela é gerada por processos neurais que são eles mesmo causais.
Outro aspecto crucial da teria edelmaniana é o conceito de “ degeneracy”, ou “geração diversa”,que costuma ser traduzido por “ redundância”: os processos neurais geram múltiplos grupos neuronais com diferentes estruturas, mas que são capazes de executar funções equivalentes. Edelman define geração diversa como “ a capacidade de diferentes estruturas desempenharem a mesma função ou gerarem o mesmo resultado/output”. Isto significa que diferentes caminhos neurais podem resultar na mesma emoção ou memória ou qualquer outra percepção consciente. E se um sistema ou subsistema cerebral pifa, outro pode “ cobri-lo” ou assumir seu lugar adaptativamente. Este conceito é coerente logicamente com o pressuposto do “ darwinismo neural” – se os estados mentais são o resultado de uma seleção estatística/ estocástica entre grandes populações de neurônios, então não pode haver um único caminho privilegiado para gerar um dado resultado.
O que é crucial aqui é que, se aceitarmos a geração diversa do cérebro que opera através dessa espécie de seleção, então, “ muito da ciência cognitiva não tem bons fundamentos” (105). O cérebro não opera algoritmicamente , como quer Dennett, ou por um processo de computação análogo ao que ocorre nos computadores digitais. O pensamento não é um processo de pegar representações simbólicas e fazer cálculos, ou operações lógicas sobre elas. Não existe uma “ linguagem do pensamento” (105), da qual a linguagem atual seria uma mera “ tradução”.
Portanto, Edelman propõe – acho que sem sabê-lo – argumentos anti-representacionistas que se contrapõem à ideologia vigente no cognitivismo ( pelo menos, na psicologia americana).
E Edelman faz isso talvez sendo um darwinista melhor do que os assim ditos “ psicólogos evolucionistas” , aqueles da psicologia evolucionista, que muitas vezes desprezam tanto as neurociências.


