O tema é tão complexo, que vou desenvolver mais essa idéia.
Latour, nesse texto, está tentando entender como se coloca o mundo em palavras, como se faz ” referência”, como entender se o ” referente” – isto é, a coisa no mundo- ” é aquilo para o qual aponto com meu dedo fora do discurso ou … o que eu trago de volta para dentro do discurso”. Estamos acostumados a apontar o dedo para mapas, diagramas, gráficos e números nos artigos científicos com a impressão de que estamos apontando para a coisa mesma – embora saibamos que estamos olhando para uma ” inscrição”, um registro escrito, das ações da coisa tal como capturadas por algum tipo de artefato de laboratório.
Latour diz que, sob o antigo arranjo, ciência, natureza e sociedade são separadas; dos escritos anteriores dele, sabemos que ele propõe a idéia bastante original e diferente de que uma rede de pessoas/coisas/textos está em íntima relação. E não são coisas separadas.
No capítulo ” Laboratório”, do ” Science in action”, Latour fala de ” inscrições”: documentos, tabelas de números, mapas e assemelhados, onde o ” mundo” foi convertido em palavras, números, imagens. No início do texto do ” Esperança de Pandora”, os cientistas só podem confiar é nas caixas pretas e tudo mais é bastante incerto. Latour mostra os cientistas no restaurante do hotel ( hããã?? no interior de Boa Vista? devia ser um muquifo, mas enfim, eles estavam acostumados com instalações meio precárias… observação minha) e no campo.
Qual é o aspecto que Latour quer apontar quando observa todo o trabalho anterior que foi realizado para fazer mapas? Também é bom observar os vários sentidos que Latour dá à noção de ” referência” – a partir daí, se colocarmos numa lista todas as definições de referência, podemos desenvolver melhor a idéia de referência circulante.
Também é importante observar todos os passos através dos quais a ” coisa” da borda savana/floresta vai sendo transformada em formas cada vez mais móveis e textuais. OBS: Latour usa a palavra “coisas”, e não ” objetos” , pois estes são as denominações usuais da linguagem científica, e ele quer falar do que estou a descrever aqui: translações.
Este é o processo através do qual o mundo é” empacotado” em palavras.
Além disso, Latour vai construindo minuciosamente as séries de transcrições matéria-para-forma-para-matéria-para-forma. Essas translações, em conjunto, encadeadas, são o que Latour chama de ” referência circulante”.
Por que é importante ser capaz de se mover em ambas as direções? ( do mundo para o texto do texto para o mundo)? Aí, Latour faz uma série de diagramas ( que ele já usou bastante no “Jamais fomos modernos”, especialmente no capítulo “Relativismo”; esta é sua maneira original de falar de referência. Precisamos ir em ambas as direções para podermos captar o movimento de construção do mundo tal como nós o entendemos. Não como uma ” construção social da realidade”, e sim como … uma construção inevitavelmente social do mundo.


