Na cidade que aparentemente nunca existiu
onde o herói morre, e morre por nada,
onde ninguém é o que é, subitamente parece
(e você, quem é você e você está aí?)
que dei por mim na janela afinal,
o quarto lá dentro escuro, que já era tarde,
o ———–lá fora escuro, que já era noite.
Dei por mim encostada na vidraça, o corpo embaixo de mim sem roupa,
e a tardividade sem diferença da sombra ao meu redor,
e nada de verdadeiro, nada desnorteado em forma ao meu redor.
Lá fora, luzes brilhando, escuridão profunda.
Uma iniciativa sem lua, consistindo em torres não visíveis
a olho nu.
Consistindo em fontes, sim, mas invisíveis, não?
E no que falamos uma vez na calada da ————muito tempo atrás.
E em muito tempo atrás.
E nas fontes, também, não?, não pode ser verdade? -
Não lhe parece, também, intruso, que alguma coisa morreu?
Uma coisa que se poderia chamar o grande estar-aí da existência,
o gigante,
ele que era uma idéia errada, mas era,
o fim que a particularidade podia atingir voando como uma gazela?
Veja agora aqui como ele está descansado,
no começo da eternidade está descansado, não ganhou o dia,
seus filhos os pontos-de-vista estão mortos, vêm e vão,
já esqueceu?
E que a neve não venha acabar logo com o seu florescimento.
Você sente agora por baixo da pele também,
a camada de tardividade e a camada de pressa,
e a carapaça de medo,
e a carapaça de ‘ o teatro agora está vazio, meu bem, a gente não devia ir?’,
(e depois até as vozes sumidas),
e a diferença mantendo o lugar no lugar.
Encostada na janela no escuro
fechando meus olhos para ver aquele escuro,
depois abrindo de novo para ver aquele escuro,
abrindo e cerrando para senti-los raspando um no outro aqui agora
(só aqui),
o escuro cerrado, o escuro aberto -
e entre os dois o ———–onde a suspeita de significado
começa, a sucção da talhadura,
como essa voz se estreita agora para indicar a proximidade
do fim da
sentença,
e a dor magra chamada sinceridade nasce,
e depois a cidade que aparentemente nunca existiu,
o querer-ter-realmente-sido, de pé,
inteiramente de pé;
e alguma outra coisa ( o alguma-outra-coisa) começando a se juntar de novo(à toda
volta) (por baixo) sibilando te curva te curva Oh pobre mulher,
você não reconhece o seu amor?
TEXTO EXTRAÍDO DE “THE REGION OF UNLIKENESS”(ed. ECO PRESS)
TRADUÇÃO DE ARTHUR NESTROWSKI
PUBLICADO NA FOLHA DE SÃO PAULO EM 20/01/2008, CADERNO MAIS!